Sargento Portugal estava em carro blindado

O carro em que estava o deputado federal Sargento Portugal (Podemos) foi alvejado, nesta quinta-feira, no Antares, em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio. Segundo testemunhas, ele estava a caminho de um projeto social quando os disparos aconteceram, mas não chegaram a feri-lo porque o veículo, um Jeep Commander, é blindado. O caso é investigado pela 36ª DP (Santa Cruz).

Até o momento, não está claro se o deputado era alvo dos criminosos, como numa tentativa de roubo. A região do Antares tem sofrido disputas entre milicianos e traficantes do Comando Vermelho, que têm ampliado domínio pela Zona Oeste.

Deputado federal tem carro alvejado na Zona Oeste do Rio; veículo é blindado

Deputado federal tem carro alvejado na Zona Oeste do Rio; veículo é blindado

Em vídeo divulgado pelo próprio deputado, ele aparece contando os disparos que atingiram o carro: "Oh, o meu carro aqui. Olha que sacanagem", disse, contabilizando cinco marcações na lataria, janelas e retrovisor. Ao "RJ1", da TV Globo, o Sargento Portugal falou que ele e o motorista viram dois homens armados de fuzis ao entrar no Antares, onde participaria da inauguração de um projeto social. A bordo de um carro, os criminosos teriam perseguido o automóvel do parlamentar, com o corpo para fora, atirando até que deixasse o local.

Pelas redes sociais, durante a tarde, o deputado classificou a ocorrência como uma "tentativa de intimidação". Em texto publicado no Instagram, Sargento Portugal escreveu seu posicionamento: "Atacaram meu carro. Mais uma vez, tentaram tirar minha vida. Esse é o preço que se paga por lutar por vocês. Por rasgar o verbo, Querem calar a minha voz."

Também nas redes sociais, o advogado Fabio Tobias, presente em Antares, afirmou que "o deputado federal sofreu um ataque de marginais na Avenida Antares. Os marginais efetuaram mais de 30 disparos e pelo menos 11 atingiram o carro do deputado. Graças a Deus nada de pior aconteceu. O deputado estava vindo aqui (Antares) inaugurar um projeto", explicou.

Após o caso, o partido ao qual o parlamentar é filiado divulgou uma nota oficial, assinada por Renata Abreu e Marcos Dias, presidentes nacional e municipal do Podemos, respectivamente. "Repudiamos esse ato covarde contra um parlamentar no exercício do seu mandato e expressamos nossa total solidariedade ao deputado. Cobramos das autoridades rigor nas investigações e a devida punição aos responsáveis. A democracia não pode conviver com a intimidação violenta de seus representantes", diz o texto, que classifica Sargento Portugal como "um dos principais nomes na defesa da segurança pública".

Em nota, a Polícia Militar informou que uma equipe do 27º BPM (Santa Cruz) foi acionada para uma ocorrência de disparos de arma de fogo, em Antares. Após informações colhidas no local, verificou-se que o veículo do parlamentar era blindado.

Policial em primeiro mandato

Sargento Portugal — batizado como José Portugal Neto — tem 48 anos e foi eleito na eleição de 2022, primeira em que disputou, segundo o sistema de Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral (Divulgacand / TSE).

O parlamentar declarou uma motocicleta de R$ 19 mil na época da eleição e recebeu R$ 100 mil da direção nacional do Podemos. O deputado estadual Marcelo Dino (União Brasil), por sua vez, doou R$ 12,7 mil à campanha. Policial militar, o deputado federal se apresenta como "cristão, conservador, patriota, pró-vida e pró-família". Em seu perfil, afirma lutar pela "dezenas de mazelas" que a PM sofre, por ser de uma família de policiais militares.

Ao todo, Sargento Portugal recebeu 33,368 mil votos e foi eleito à Câmara dos Deputados em 2022. No estado, o local de votação em que mais foi votado foi o Colégio Estadual República do Líbano, em Sapucaia, no interior do Rio, com 143 votos. No território fluminense, os dez locais de votação de onde recebeu mais votos estão distribuídos pelos municípios de Itaperuna, Bom Jesus do Itabapoana, Maricá e São Gonçalo, além da cidade do Rio.

Na capital, os 10 locais em que mais recebeu votos estão todos na Zona Oeste da cidade. Na Escola Municipal Jorge Amado, no Itanhangá, ele teve 72 votos, seguido pela Escola Municipal Nações Unidas, em Bangu (54); Ciep Governador Roberto da Silveira, em Jacarepaguá (52); Escola Municipal Ari Marques Pontes, em Guaratiba (48); Escola Municipal Jornalista Sandro Moreira, em Bangu (46); Escola Municipal Cláudio Besserman Vianna, em Jacarepaguá (46); Colégio Pedro II, em Realengo (45); Ciep Hélio Pellegrino, em Campo Grande (44); Feuc, em Campo Grande (43); e o Ciep Padre Paulo Correa de Sá, em Padre Miguel, com 43 votos.

Região é palco de disputa da milícia com o Comando Vermelho

A região de Santa Cruz, com áreas conflagradas sob domínio da milícia, tem sido alvo de disputa territorial. Em janeiro deste ano, por exemplo, o tenente-coronel Mario Marcelo Dias Brasil, comandante do 27º BPM (Santa Cruz), pediu ao 2º Comando de Polícia de Área que motopatrulhas da Polícia Militar permanecessem na área de atuação do batalhão para apoiar ações repressivas nas comunidades do Antares e do Cesarão. De acordo com o documento, obtido pelo EXTRA, o objetivo era "evitar um confronto" entre milicianos da área e a facção Comando Vermelho (CV), enumerando uma lista de investidas recentes.

Entre os ataques atribuídos pela PM ao CV, que tenta tomar territórios da milícia, há um em 19 de dezembro do ano passado, no Antares, em que o policial penal Henry dos Santos Oliveira e um morador da área, identificado como Nilberto da Silva Botelho, foram mortos. Na ocasião, o agente presenciou um assalto num depósito de bebidas e abordou os criminosos, que reagiram a tiros. Já Nilberto foi baleado enquanto passava na rua.

Já em 30 dezembro, outro ataque do CV à comunidade deixou quatro moradores baleados, que precisaram ser socorridos no Hospital municipal Pedro II. Neste ano, em 2 de janeiro, por exemplo, equipes do 27º BPM detectaram nova investida do Comando Vermelho no Antares, o que "gerou uma mobilização por parte desta unidade com fulcro de conter a investida do bando criminoso". O documento da Polícia Militar também cita ataques do CV a milicianos em Guaratiba.

Mais recentemente, em 30 de março, novamente traficantes do CV — oriundos da Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana — foram até Santa Cruz. Foi preciso cruzar a cidade, percorrendo 75 quilômetros, até o Antares, onde tentaram invadir a comunidade dominada pela milícia, e houve confronto. No retorno do ataque, na Serra da Grota Funda, que liga o Recreio a Guaratiba, os traficantes do CV abordaram o agente da Corregedoria de Recursos Especiais da Polícia Civil João Pedro Marquini, que foi assassinado pelos criminosos.

Marquini era marido da juíza Tula Corrêa de Mello, que estava em outro carro. O veículo dela também foi alvo de tiros, mas a magistrada conseguiu fugir. Na ocasião, o carro usado pelos criminosos na ação, um Tiggo 7, foi encontrado na comunidade Cesar Maia, em Vargem Pequena.

Na última terça-feira, a Core e a Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) realizaram uma operação no Tabajaras, para prender suspeitos de envolvimento na morte de Marquini. Cinco traficantes morreram e, durante a noite, um homem foi preso pela participação na morte do agente da Core. Durante uma coletiva, o secretário de Polícia Civil Felipe Curi explicou um pouco o contexto das disputas na Zona Oeste:

— O carro (Tiggo 7), que foi recuperado pela Core na favela Cesar Maia (em Vargem Pequena), era usado por Cheio de Ódio (um dos mortos na operação). E por que ele estava (no ataque), embora não tenha sido identificado nas perícias realizadas pela DHC? Porque ele recebeu uma determinação do Ronaldinho Tabajaras (Ronaldo Pinto Lima e Silva), que está em presídio federal, para tomar Antares, por conta dessa política expansionista do Comando Vermelho — disse Curi.

Extra o Globo