
Quando surgiram, as guardas municipais
tinham como principal função a preservação do patrimônio urbano. Em
1988, quando foi pensado o esquema de segurança pública para a
Constituição Federal, a responsabilidade passou a ser resguardar o
patrimônio e assuntos mais próximos das comunidades. De lá para cá, as
coisas foram mudando. Na Bahia, com o avanço das facções criminosas, foi
crescendo proporcionalmente o número de cidades com suas próprias
guardas municipais.
Dos
417 municípios baianos, 199 têm suas guardas municipais – em termos
percentuais, o equivalente a 47,72% do estado. É o maior em números
absolutos em relação às outras unidades do Nordeste, mas,
proporcionalmente, cai para o quarto lugar, atrás de Alagoas (53,92%),
Ceará (48,37%) e Pernambuco (48,11%). Dessas 199 cidades, pelo menos 18
têm guardas armadas.
A
regulamentação do uso de armas de fogo por agentes desse órgão veio em
2014, e a mudança na atuação das guardas municipais está diretamente
relacionada ao crescimento da violência no país – cenário que chama
ainda mais atenção na Bahia, o segundo estado mais letal do Brasil e
onde estão cinco das dez cidades mais violentas do país.
“O
crescimento da violência na Bahia tem relação direta com a manutenção
das antigas e renovadas formas de fazer segurança pública, sobretudo,
quando estamos falando de territórios violentados. Então, a violência é o
expediente, a letalidade é vista como eficácia e eficiência”, diz Dudu
Ribeiro, integrante da rede de Observatórios de Segurança e cofundador e
coordenador executivo da Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre
Drogas.
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Guarda Municipal de Ibotirama foi às ruas pela primeira vez em 2020 por Divulgação/Prefeitura de Ibotirama |
De
acordo com o especialista, o que tem acontecido é um movimento nacional
de incorporação das guardas municipais ao modelo já conhecido de
segurança pública, que se baseia no confronto e expõe ainda mais os
agentes à lógica de guerra. “A questão é que as guardas muito
rapidamente passam a ser gestadas por ex-policiais ou por servidores
ativos cedidos a esse equipamento, que também cumpre o lugar de um tipo
de polícia municipal, que não era a intenção da sua fundação. Os
prefeitos passam a requerer uma polícia própria e a estrutura das
guardas passa a ser cada vez mais militarizada, no seu conceito, na sua
linguagem, na sua gramática”, afirma.
Diagnóstico inédito
Os
números relativos às guardas municipais no Brasil foram divulgados no
Diagnóstico Nacional das Guardas Municipais, lançado pelo Ministério da
Justiça e dos Direitos Humanos. Este é o primeiro levantamento do tipo, e
aborda a estrutura, o efetivo, a capacitação e a atuação dessas
corporações em todo o território brasileiro.
A
pesquisa, conduzida pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), em
parceria com a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) e o
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), faz parte do
monitoramento para o Programa Município Mais Seguro, divulgado através
do Diário Oficial da União (DOU). A iniciativa prevê a destinação de R$
171 milhões para apoio técnico e financeiro a municípios brasileiros que
queiram ampliar a atuação das Guardas Municipais.
As
localidades que receberão o incentivo e os valores destinados ainda não
foram divulgados pelo Ministério - a pasta afirmou que os repasses
dependem da adesão dos municípios ao programa. Em nota, disse que o
programa foi estruturado em fases, sendo que a primeira contemplará
exclusivamente os municípios com efetivo superior a 100 guardas
municipais, e que os editais de chamamento serão publicados ainda neste
ano, com pactuação prevista para 2026.
Desse
investimento, a maior parte (mais de R$ 100 milhões) vai para o Projeto
Nacional de Qualificação do Uso da Força, que contempla equipamentos de
proteção individual, armas de menor potencial ofensivo – como
espargidores e armas de incapacitação neuromuscular (AINMs) – e
treinamentos e capacitações. Para a etapa de Capacitação e Formação
Profissional, que prevê cursos presenciais e integrados com foco na
prevenção da violência e no uso qualificado da força, o investimento
será de R$ 5,6 milhões – quase 18 vezes a menos.
Para
Pablo Nunes, coordenador do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania
(CESeC) e membro do conselho técnico do Laboratório de Dados Fogo
Cruzado, a divisão de funções dos órgãos de segurança já foi pensada de
maneira insuficiente há quatro décadas, fruto de um diagnóstico
impreciso da segurança pública brasileira. Agora, segundo ele, o
problema se amplia ao empoderar as guardas municipais quase como
polícias.
“Por
isso, não me surpreende que o pacote proposto pelo Governo Federal seja
focado em grande parte na aquisição de equipamentos, porque é isso que o
Governo Federal tem feito nos últimos anos, até das últimas décadas, em
relação à segurança pública. Um papel único e exclusivo de comprar
equipamentos e de municiar essas instituições com armamento”, diz.
“É
óbvio, é muito importante que se produzam políticas públicas novas para
dar respostas para a população em relação à segurança pública, mas me
parece que criar novas guardas orientadas para uma estratégia que já
orienta as polícias estaduais, não me parece que vai resolver. É quase
exigir ou esperar um resultado diferente de uma equação que permanece a
mesma”, completa.
Por
ter função de proteção preventiva e porte de armas, a Guarda Municipal
também tem a indicação de usar câmeras corporais nas fardas, assim como
as polícias estaduais. Em todo o Nordeste, porém, esse nível é baixo –
dos municípios que participaram do levantamento do Ministério da
Justiça, apenas 1,92% faz uso desse equipamento. Na Bahia, de 80
respondentes, apenas dois municípios declararam utilizá-las: Feira de
Santana e Jitaúna. De acordo com a Guarda Civil Municipal (GCM) de
Salvador, há previsão de início de uso na capital baiana para o próximo
ano.
Nunes
diz que a situação atual é lamentável: “A gente tem uma política que
não tem produzido resultados significativos para os nossos problemas e
agora, de uma hora para a outra, cria novas entidades, novas
instituições de polícia que vão seguir a mesma lógica: essa lógica de
armamentos, repressão e militarização. Me parece que é um
reinvestimento, agora aprofundado nas mesmas estratégias que têm sido
adotadas e que não têm resultado em efeitos práticos para a população.”
Fonte: Correio 24 Horas

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