O
presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), avisou a
aliados que pretende segurar a votação do nome indicado pelo presidente
Lula (PT) para a presidência da CVM (Comissão de Valores Mobiliários).
Em conversas reservadas, o parlamentar contesta informações de que ele
seria responsável pela indicação de Otto Lobo, que provocou reação
negativa no mercado financeiro.
Otto era presidente interino da
autarquia desde o fim de julho. Uma semana após assumir o cargo, na
contramão da área técnica, ele tomou uma decisão favorável ao Banco
Master, que livrou o banco e os empresários Nelson Tanure e Tércio
Borlenghi Junior de um inquérito que apurava suposta "ação orquestrada"
para elevar o preço das ações da Ambipar, empresa de gestão de resíduos.
Alcolumbre
disse a parlamentares que não levará o nome de Lobo a votação no Senado
enquanto não forem revelados aqueles que seriam os verdadeiros
padrinhos da indicação. O Ministério da Fazenda se opôs à indicação e
trabalhou contra o nome de Lobo, e a escolha do nome dele representa uma
derrota para Fernando Haddad.
Segundo relatos de quatro pessoas
que atuam no governo e no mercado financeiro, com forte interlocução em
Brasília, a indicação de Lobo se deve a um consórcio formado entre
parlamentares próximos do banqueiro Daniel Vorcaro, que controlava o
liquidado Banco Master, e o empresário Wesley Batista, do grupo J&F.
Procurada, a J&F diz que a informação não procede.
Alcolumbre
indicou que não pretende assumir a responsabilidade pela escolha de
Lobo. Ele teria manifestado a parlamentares próximos que ficou irritado
com a atribuição do apadrinhamento, responsabilizando o governo Lula
pela informação.
Lobo chegou à CVM em 2022, com indicação
atribuída ao presidente do PP, Ciro Nogueira, que também foi relator de
sua indicação no Senado. Ciro é também citado como uma das lideranças
políticas mais próximas de Vorcaro na teia de influência política que o
dono do Master sustentou nos últimos anos.
No mundo político, a
decisão de Lula pela indicação de Lobo foi vista como uma tentativa de
agradar ao Senado e tentar destravar a indicação de Jorge Messias para o
STF (Supremo Tribunal federal). Alcolumbre negou essa leitura nas
conversas que teve com aliados.
Em circunstâncias normais, a
mensagem com a indicação de Lobo poderia começar a tramitar no Senado em
fevereiro, após o fim do recesso parlamentar. O nome seria levado à CAE
(Comissão de Assuntos Econômicos) para uma sabatina e uma votação, e
depois para o plenário.
Otto Eduardo Fonseca de Albuquerque Lobo,
58, é um advogado carioca especializado em direito societário, do
mercado de capitais, arbitragem e insolvência. Ele é o atual presidente
interino da CVM e foi indicado por Lula na quarta-feira (7) para ocupar o
posto de maneira efetiva.
Em sua presidência interina, a CVM
teve que lidar com escândalos, como o Banco Master, a infiltração do PCC
(Primeiro Comando da Capital) na Faria Lima e a crise da Ambipar.
Em
novembro, o governo do Distrito Federal foi citado e se tornou réu em
processo iniciado pela autarquia referente ao BRB (Banco de Brasília) no
âmbito dos negócios com o Master.
Lobo não estava entre os mais
cotados ao posto de forma definitiva pelo presidente Luiz Inácio Lula da
Silva. Como mostrou a Folha, a aposta inicial estava nos advogados Igor
Muniz, Marina Copola e André Pitta.
Muniz é presidente da
Comissão Especial de Mercado de Capitais da OAB (Ordem dos Advogados do
Brasil) e advogado da Petrobras, e tinha apoio de senadores e de
integrantes da Casa Civil.
Pitta é um dos sócios do escritório
Trindade Sociedade de Advogados e conta com um perfil de atuação
considerado amplo no mercado de capitais, advogando com direito
societário de companhia aberta e com passagem pela B3.
Copola é diretora da CVM, indicada pelo ministro Fernando Haddad (Fazenda), com mandato até dezembro de 2028.
Vinculada
ao Ministério da Fazenda, a CVM é responsável pela fiscalização de
cerca de R$ 16,7 trilhões em ativos negociados no mercado, como ações,
fundos de investimentos e debêntures.
Lobo está na CVM desde 2022, após indicação do então presidente Jair
Bolsonaro (PL). Com a renúncia de João Pedro Barroso do Nascimento do
comando da autarquia, em julho de 2025, o advogado, que era o diretor
mais antigo da autarquia, passou a ocupar a presidência do órgão de
forma interina.
Nascimento renunciou ao cargo em julho do ano
passado e Lobo, diretor mais antigo da autarquia até então, foi indicado
interinamente para a presidência da CVM na época.
Como a Folha
de S.Paulo mostrou, a renúncia do presidente da CVM escancarou pressões
políticas que cercam casos polêmicos no órgão regulador do mercado de
capitais brasileiros, colocando o colegiado numa crise inédita.
Apadrinhado
pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), JP, como é conhecido, deixou o
cargo em julho do ano passado, a dois anos de terminar o mandato,
aumentando o desfalque na diretoria da autarquia vinculada ao Ministério
da Fazenda responsável pela fiscalização de cerca de R$ 16,7 trilhões
em ativos negociados no mercado, como ações, fundos de investimentos e
debêntures.
Há ainda uma vaga a ser preenchida no colegiado da
CVM. Um dos cotados, com influência política, é André Vasconcellos,
diretor da Fictor Alimentos. A empresa é vinculada à Fictor Holding, que
informou ao mercado uma proposta de compra do Master horas antes de
Vorcaro ser preso pela Polícia Federal.
Vasconcellos afirmou à
Folha que seu nome estava sendo cotado para a diretoria da CVM antes
mesmo de assumir o cargo de Relações com investidores da Fictor
Alimentos. Segundo ele, caso seja efetivamente indicado e empossado, se
declarará imediatamente impedido de julgar qualquer questão envolvendo o
Grupo Fictor e ainda o Banco Master, assim como seus controladores e
administradores.
A Abrasca (associação das companhias abertas)
considerou as indicações de Lobo e Muniz como positivas. "Como é
esperado, são dois nomes bastante técnicos, com vasta experiência no
mercado e amplamente conhecidos", afirmou Pablo Cesário,
presidente-executivo da Abrasca.
Por Adriana Fernandes e Mariana Carneiro / Folhapress
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