
Na madrugada de 13 de dezembro, um crime de extrema violência chocou Salvador e provocou comoção entre motoristas de aplicativo e toda população. Quatro trabalhadores foram torturados e assassinados após aceitarem corridas com destino ao bairro de Mata Escura, em um caso que ficou conhecido como a “chacina dos motoristas de app”.
As vítimas foram identificadas como Sávio da Silva Dias, de 23 anos; Alisson Silva Damasceno dos Santos, de 27; Daniel Santos da Silva, de 31; e Genivaldo da Silva Félix, de 48. Os corpos foram encontrados enrolados em lonas plásticas. No mesmo bairro, três veículos usados pelos motoristas foram localizados. Um quarto carro foi achado no pedágio de Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador.
Motoristas atraídos por corridas e executados com sinais de tortura
Segundo as investigações, os motoristas foram atraídos por chamadas feitas nos próprios aplicativos de transporte. A travesti Amanda Franco da Silva Santos, nome social da acusada, foi acusada de ser a responsável por acionar as vítimas, recolher os celulares e solicitar novas corridas, conduzindo os motoristas para o local onde ocorreram as execuções.
De acordo com o delegado Odair Carneiro, responsável pelo caso à época, os criminosos rendiam as vítimas e as levavam para um campo de futebol e, em seguida, para um barraco na região. “Ele (Amanda) que acionava a vítima pelo aplicativo, depois rendia elas, levava para um campo de futebol e depois para o barraco onde ocorreram os crimes. Como duas das vítimas reagiram e tentaram fugir, eles decidiram matar os motoristas. (Amanda) presenciou as execuções, não efetuou disparos, mas espancou as vítimas”, afirmou.
O grupo era formado por cinco pessoas e já teria praticado outros assaltos atraindo motoristas para o local. Além de Amanda, participaram Jeferson Palmeira Soares Santos, conhecido como “Jel”, apontado como líder da facção criminosa Bonde do Maluco (BDM); Antônio Carlos Santos de Carvalho; Marcos Moura de Jesus; e um adolescente de 17 anos. À exceção de Amanda, todos os outros envolvidos morreram dias depois, em confrontos com a polícia ou em circunstâncias posteriores ao crime.
Tortura, fuga e os áudios do sobrevivente
O crime só veio à tona após um dos motoristas conseguir fugir do cativeiro e acionar a polícia. Ele escapou depois de se livrar de um dos agressores e correr para um matagal, mesmo sendo perseguido. Policiais militares localizaram, em seguida, uma cena descrita pelos peritos como macabra: quatro corpos enrolados em lonas, grande quantidade de sangue espalhada pelo barraco onde as vítimas foram mantidas e sinais claros de tortura. Um gambá morto foi encontrado sobre uma cama no local.
Além dos corpos, a polícia encontrou veículos abandonados na comunidade. Quatro dos cinco carros usados pelos motoristas foram localizados. Dois deles estavam próximos a um matagal, outro foi achado dentro da garagem de um barraco vazio e o veículo do motorista que conseguiu fugir também havia sido deixado na região. Um quinto carro foi localizado fora da área do crime, no pedágio de Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador.
Nos dias seguintes, o sobrevivente gravou áudios enviados a colegas de profissão relatando o que havia vivido. O conteúdo foi confirmado como autêntico pela Associação de Motoristas Profissionais de Aplicativos da Bahia e pelo Sindicato dos Motoristas por Aplicativos e Condutores de Cooperativas do Estado da Bahia (Simactter).
Em uma das mensagens, ele disse: “Fala aí, meus irmãos. Estou bem, estou vivo, com algumas escoriações. Não tem novidade não… Todo dia eu falo para vocês que Jesus é maravilhoso, que ele sabe de todas as coisas. Se fosse minha hora, amém, mas não foi minha hora”.
O motorista contou que foi amordaçado com fio de internet e teve pés e mãos amarrados. Em outro trecho, relatou uma ameaça: “Ele falou para mim: ‘Você não vai morrer não. Agora quando eu falar já, é já. Se vire’”.
Nos áudios, o sobrevivente descreveu ainda como os colegas foram assassinados. “Os caras falaram que era sexta-feira 13 e que tinham que matar com requinte de crueldade, que tinham que derramar sangue. Cortaram os caras todo de facão e depois deram tiro. Feio, muito feio”, disse. Em outro momento, chorando, lamentou: “Oh, irmão, não tinha necessidade de eles matarem ninguém, véi. Só levou tudo, não tinha necessidade, porra. Mataram quatro pais de família”.
Ele afirmou ainda que “queria muito viver para contar essa história” e relatou o impacto de ir ao Instituto Médico Legal (IML), onde encontrou familiares de uma das vítimas. “É doloroso, você não sabe o que falar”, concluiu.
Versões sobre a motivação
A motivação da chacina foi alvo de versões distintas ao longo das investigações. Em depoimento à polícia, Amandaafirmou que o objetivo inicial do grupo era roubar os veículos e pertences das vítimas. Essa linha foi reforçada pelo delegado Odair Carneiro. “A hipótese de vingança foi descartada. Eles não queriam matar porque um motorista negou socorro a mãe de um deles. O objetivo era roubar dinheiro e os carros”, declarou.
O Ministério Público, no entanto, sustentou a tese de vingança. Segundo o promotor de Justiça Davi Gallo, no dia anterior ao crime, Jeferson teria feito diversas solicitações de corrida para socorrer um parente, mas as viagens não foram aceitas por se tratar de uma área considerada violenta. A pessoa que aguardava atendimento morreu, o que teria motivado a ação criminosa. Para o MP, o grupo agia de forma organizada, “em caráter estável e permanente, fortemente armados, com arma de grosso calibre, com divisão de tarefas preestabelecidas”.
O único sobrevivente da chacina relatou momentos de terror. Ele contou que foi rendido, torturado e ameaçado de morte. Em um dos trechos do depoimento, disse que, ao negar que tinha dinheiro, ouviu de um dos criminosos: “Então você vai morrer”. Em outro momento, ao questionar a motivação do ataque, relatou a resposta de um dos agressores: “Mataram toda minha família e eu vou matar vocês”. A fuga só foi possível após a reação de outro motorista, que entrou em luta corporal com os suspeitos.
Prisões, denúncia e clamor por justiça
Benjamin foi preso dias depois, na localidade do Alto do Tanque, no bairro de Periperi, e apresentado na sede do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). O Ministério Público o denunciou pelos homicídios qualificados dos quatro motoristas, tentativa de homicídio contra o sobrevivente, além de roubo qualificado, associação criminosa e enquadramento na Lei de Crimes Hediondos.
Poucas horas após a chacina, motoristas de aplicativo realizaram uma carreata pelas ruas de Salvador, cobrando mais segurança para a categoria. Anos depois, durante o júri popular do único acusado vivo, familiares das vítimas voltaram a se reunir no Fórum Ruy Barbosa pedindo uma condenação exemplar.
“O que eu mais queria não vou ter é ele de volta. Porém, ainda quero que a Justiça seja feita. Que ela seja responsabilizada para termos paz”, afirmou Antônio Damasceno dos Santos, pai de Alisson, antes do julgamento.
Condenação
Após anos de investigação e tramitação judicial, o caso teve desfecho no Tribunal do Júri. A travesti foi condenada a 63 anos e oito meses de reclusão.
Amanda foi considerada culpada pelas mortes dos quatro motoristas de aplicativo, por uma tentativa de homicídio e por seis roubos, todos relacionados à chacina ocorrida em 13 de dezembro de 2019, na localidade conhecida como Paz e Vida. Única acusada viva no processo, Amanda foi julgada sozinha, já que todos os comparsas morreram.
Com a condenação, o julgamento encerrou um dos casos mais violentos e emblemáticos envolvendo motoristas de aplicativo em Salvador, marcado por extrema crueldade, forte repercussão social e mobilização da categoria por mais segurança.
Correio
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