
É uma canalhice da direita minimizar a vitória de Wagner Moura. Ele é um ator excelente, merece todo o sucesso, todos os prêmios e todas as homenagens. Ganhou o Globo de Ouro pela sua atuação em O Agente Secreto, e é grande a chance que ganhe o Oscar.
Como todos os atores excelentes, ele é maniqueísta em história e ingênuo na política. Odeia Jair Bolsonaro e ama Lula, ignorando que ambos são faces da mesma moeda. Que ambos, cada a um a seu modo, são filhotes da ditadura militar. E que os dois são um tremendo mal para a democracia brasileira.
Dá para entender, contudo, o amor de Wagner Moura por Lula.
Ao contrário de Bolsonaro, o petista contou com intelectuais e artistas para construir a sua trajetória — e, uma vez no poder, soube retribuir o apoio com dinheiro para todo tipo de projeto cultural.
Assim como Bolsonaro, Lula é de uma ignorância crassa, já disse que ler é tão chato quanto fazer esteira, mas teve a esperteza de continuar afável com intelectuais e artistas, em complemento à distribuição farta de dinheiro público.
No primeiro mandato do petista, uma das suas ações de marketing era fazer sessões de cinema no Palácio do Alvorada. A coisa deixou forte lembrança.
Atento ao timing perfeito, Lula telefonou para Wagner Moura para cumprimentá-lo pela vitória no Festival de Cannes, tudo bem divulgado nas redes sociais.
Na conversa telefônica, o ator rasgou seda para o cineminha do petista:
“Eu me lembro que você fazia umas sessões de cinema, mostrando que gosta de cultura, presidente. Isso é uma diferença muito grande para qualquer país que quer se desenvolver.”
Lula, então, disse a Wagner Moura, na sua tautologia peculiar:
“A gente vai conseguir colocar a cultura como uma coisa perene neste país. Ela ensina as pessoas, torna as pessoas mais cultas, mais politizadas e gera milhões de empregos”.
Emocionado, o ator respondeu:
“Você não sabe a alegria que é falar com você e ouvir falar assim de cultura. É lindo, emociona e faz a gente ter certeza de que a gente está indo para o lugar certo, para o caminho certo.”
Não quero lançar o pomo da discórdia em momento tão feliz, mas gostaria de observar que cultura pode tornar as pessoas mais interessantes, não necessariamente melhores, e nem sempre leva a gente para o lugar certo.
Josef Stalin, por exemplo, adorava cinema. Organizava sessões cinematográficas quase que diariamente no Kremlin e nas suas dachas. Ele assistia a produções soviéticas e estrangeiras, não raro até a alta madrugada, acompanhado de asseclas.
O ditador adorava filmes americanos e era fã de John Wayne. Compreende-se: matar índios também era a especialidade de Stalin, índio aqui entendido como todo aquele cidadão que se fazia obstáculo para os seus desígnios.
Dado curioso, como os filmes estrangeiros não eram legendados ou dublados, o ditador contava com um sujeito que ficava ao seu lado para traduzir em tempo real as falas dos atores para o russo.
Cinema, principalmente o nacional, era coisa muito séria para Stalin. Tanto que ele interferia diretamente na realização dos filmes patrocinados pelo regime soviético, praticamente todos.
Stalin enxergava no cinema um poderoso instrumento de propaganda comunista, e tinha o seu equivalente, com o sinal trocado, em outro líder totalitário: Adolf Hitler, um pintor frustrado que era entusiasta da cultura, desde que ela servisse aos propósitos nazistas.
Apenas para efeitos de didatismo, usei personagens extremos para ilustrar que cultura não torna automaticamente ninguém melhor. Ignorância também não, é claro, e o próprio Lula é mostra disso.
Por último, e tão desimportante quanto o que foi escrito acima, depois da sua vitória merecidíssima no Globo de Ouro, Wagner Moura disse a jornalistas:
“A ditadura ainda é uma ferida aberta na vida brasileira. Ela aconteceu apenas 50 anos atrás. Nós recentemente tivemos, de 2018 a 2022, um presidente de extrema-direita/fascista no Brasil, que é uma manifestação física dos ecos da ditadura. Então, a ditadura militar ainda é muito presente na vida diária dos brasileiros. Então, precisamos continuar fazendo filmes sobre ela.”
Ele está certo: não se pode deixar acontecer com a ditadura militar o que ocorreu com a ditadura de Getúlio Vargas, que foi entronizado como herói dos trabalhadores pela esquerda brasileira. Até hoje, pagamos um preço alto por essa malandragem. Então, sugiro um Agente Secreto ou um Ainda Estou Aqui para Getúlio Vargas, estrelado por Wagner Moura, já que mais ninguém lê mesmo Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos.
Fonte:Metrópoles
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