Os Estados Unidos interceptaram e apreenderam nesta quarta-feira (7) um petroleiro com bandeira russa que transportava óleo venezuelano no Oceano Atlântico, numa potencial escalada da crise iniciada pela captura do ditador Nicolás Maduro e de sua mulher pelos americanos, no sábado (3).
A interceptação foi confirmada à agência Reuters e pela rede estatal russa RT, que veiculou um vídeo no qual um helicóptero americano circula a embarcação em águas internacionais. Não há detalhes da ação ainda.
A perseguição ao navio Marinera começou há duas semanas. Antes, em 10 de dezembro, um outro petroleiro venezuelano havia sido interceptado e capturado pelos EUA. O governo de Donald Trump determinou então um embargo a todo o transporte de petróleo e derivados para dentro e fora do país caribenho.
Diversos petroleiros que já estavam no mar desligaram seus sistemas de comunicação e começaram a fugir das forças americanas. O Bella-1, que navegava com bandeira da Guiana, mudou então de nome para Marinera e passou usar registro estatal russo, baseado em Sochi (mar Negro).
A mudança presumivelmente poderia dar mais proteção à embarcação, mas não foi isso que aconteceu. Na terça (6), quando ficou claro que as forças americanas estavam se aproximando do navio, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia emitiu um alerta, dizendo que era preciso respeitar a liberdade de navegação garantida no direito internacional.
Nesta quarta, o Ministério dos Transportes russo disse que o caso violava leis marítimas, e parlamentares acusaram os EUA de pirataria.
Segundo o americano Wall Street Journal, os russos chegaram a mobilizar um submarino no Atlântico para ir escoltar o agora Marinera. Autoridades americanas falaram o mesmo à agência Reuters, mas Moscou não comentou.
Para um analista militar em Moscou, ouvido pela reportagem, isso seria muito difícil por motivos políticos, já que ensejaria um confronto com Trump que Vladimir Putin não deseja, e técnicos, uma vez que a embarcação demoraria dias para chegar ao petroleiro.
O Marinera passava por uma tempestade segundo o vídeo da rede RT. Nele, é possível ver um navio da Guarda Costeira ameicana e um helicóptero de pequeno porte tentando se aproximar do navio.
A Rússia é, ao lado da China, a maior fiadora do regime chavista da Venezuela. Moscou forneceu o equivalente hoje a R$ 80 bilhões em armas de 2005 a 2013, e até 2020 manteve operações petrolíferas extensas no país —devido a sanções a Caracas, elas são limitadas.
O Kremlin também apoia a ditadura cubana, um dos esteios do chavismo, que está sob pressão nesta crise: o embargo petrolífero de Trump pode asfixiar economicamente a ilha, dependente do produto de Caracas, e levar a instabilidade social ainda maior.
Ao longo do cerco militar de Trump contra Maduro, Moscou prometeu apoio, mas na prática não podia fazer muita coisa, não menos porque Putin tratava com o americano os termos de um acordo para encerrar a Guerra da Ucrânia em termos favoráveis ao Kremlin.
Isso tudo está em suspenso agora, com a captura de Maduro e o endurecimento aparente da posição de Trump nas negociações que se desenrolam nesta semana em Paris.
Os EUA não parecem ter colocado óbice à proposta europeia de envio de uma força de paz para garantir a segurança de Kiev em caso de trégua, algo que os russos nunca aceitaram.
Por ora, o governo Putin demonstrou apoio à líder interina do país, Delcy Rodríguez, que alterna abertura a Trump com críticas à ação que levou Maduro ao banco dos réus em Nova York, sob uma acusação algo mutante de narcoterrorismo.
O foco central de Trump na ação contra a Venezuela é, além de se livrar de um governante hostil, ter acesso às maiores reservas de petróleo do mundo. O óleo de lá não é de boa qualidade, mas o americano já anunciou um esquema em que receberá 50 milhões de barris e ficará com os lucros de sua venda, algo ainda incerto.
Após a interceptação do Marinera, o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, disse que o bloqueio dos EUA ao petróleo venezuelano alvo de sanções permanece em pleno vigor "em qualquer lugar do mundo".
Por Igor Gielow, Folhapress
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