O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta terça-feira (13) que cancelou qualquer diálogo com autoridades do Irã e instou manifestantes a "tomarem as instituições", em mais um sinal de apoio americano aos grandes protestos que tomaram as ruas de diversas cidades do país persa e já somam 2.000 mortes, pelas contas da ONG de direitos humanos Hrana.
"Patriotas iranianos, CONTINUEM A PROTESTAR —TOMEM SUAS INSTITUIÇÕES!!! Guarde os nomes dos assassinos e abusadores. Eles pagarão um grande preço. Eu cancelei todas as reuniões com autoridades iranianas até que essa matança sem sentido de manifestantes ACABE. AJUDA ESTÁ A CAMINHO. MIGA!!! [Make Iran Great Again]", escreveu Trump na rede Truth Social, com as habituais letras maiúsculas.
A contagem de ao menos 2.000 mortos expõe um aumento significativo nos últimos dias da repressão ao movimento iniciado em 28 de dezembro, quando então era apenas uma insatisfação de comerciantes do Bazar de Teerã com a desvalorização do rial, a moeda local, e a inflação crescente. No começo do domingo (11), as estimativas ainda estavam entre 100 a 200 vítimas, subindo para 500 ao fim da noite. Agora, a cifra já é o quádruplo de dois dias atrás.
Teerã não divulga balanço oficial de mortos, sejam manifestantes ou membros das forças de segurança, mas o mesmo número de 2.000 vítimas já havia sido passado à agência Reuters por um funcionário do próprio regime, culpando o que chamou de terroristas pela escalada da violência.
Em outro indicador de que os protestos são reprimidos de forma brutal, entidades afirmaram que Teerã deverá executar, nesta quarta-feira (14), um manifestante preso. Se concretizada, essa será a primeira execução desde o início dos atos.
A publicação de Trump desta terça eleva os receios de uma nova intervenção militar americana contra um rival de Washington, pouco mais de uma semana após ataque dos EUA a Caracas e captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro.
O Qatar, país cuja monarquia se aproximou do governo Trump e que se firmou como mediador de conflitos recentes na região, afirmou nesta terça que uma escalada militar entre os EUA e o Irã teria consequências graves para a região —Washington atacou o programa nuclear e autoridades militares do país persa em junho do ano passado, em meio ao conflito de Teerã com Israel.
Segundo dois funcionários do governo americano afirmaram à rede CBS News, Trump já foi informado por auxiliares a respeito de uma ampla gama de ações militares possíveis no Irã. De acordo com essas pessoas, entram na avaliação desde operações cibernéticas e psicológicas até ataques com mísseis de longo alcance.
Nesta terça, o site Axios afirmou que o enviado da Casa Branca Steve Witkoff se reuniu no fim de semana com Reza Pahlavi, filho exilado nos EUA do xá Mohammad Reza Pahlevi (1919-1980), deposto pela Revolução Islâmica de 1979. O príncipe herdeiro tem sido uma das vozes da fragmentada oposição iraniana a instigar os protestos. O encontro não foi divulgado publicamente.
A mais recente onda de manifestações representa um dos maiores desafios ao regime teocrático desde a Revolução Islâmica de 1979. O regime tem respondido com uma repressão violenta.
O manifestante cuja execução está prevista para esta quarta foi identificado como Erfan Soltani, 26. Ele foi detido na semana passada após participar de protestos na cidade de Fardis, próxima à capital Teerã, informou o grupo de direitos humanos Hengaw, com sede na Noruega. Ainda de acordo com a entidade, a família de Soltani não teve acesso às informações sobre as acusações e demais detalhes do processo.
O Irã havia dito nesta segunda-feira (12), um dia após o americano afirmar que avaliava respostas à violenta repressão aos protestos no país, que mantinha o diálogo aberto com os EUA.
No domingo (11), o republicano disse que os EUA poderiam se reunir com autoridades iranianas e que estava em contato com a oposição. Ao mesmo tempo, porém, aumentou a pressão sobre os líderes da República Islâmica, inclusive ameaçando com uma possível ação militar em resposta à violência contra os manifestantes. Em outra frente, nesta segunda (12), ele anunciou que países que façam negócios com o Irã estarão sujeitos a uma tarifa de 25% sobre qualquer transação realizada com os EUA —O Brasil seria uma das nações afetadas caso a medida se concretize.
Em tom de provocação a Trump, a conta oficial do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, chegou a compartilhar nas redes sociais uma charge que mostra o líder americano como um sarcófago destroçado. O desenho é acompanhado da frase: "Ele também será derrubado".
O Alto-Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Turk, disse nesta terça-feira que está horrorizado com o cerco aos manifestantes. "Esse ciclo de violência não pode continuar. O povo iraniano e suas demandas por justiça, igualdade e equidade precisam ser ouvidos", afirmou em um comunicado.
Teerã tem acusado Israel e os EUA de soprarem as chamas dos protestos, ao mesmo tempo que se diz aberto ao diálogo e que convoca manifestações pró-regime para fazer frente aos atos críticos aos aiatolás.
O apagão quase total das comunicações imposto pelas autoridades iranianas dificulta a checagem e o acesso à informação. Segundo a ONG Netblocks, o bloqueio do acesso à internet já ultrapassava 108 horas na manhã desta terça.
Um jornalista da agência de notícias AFP relatou que, embora o apagão da internet continue, a conexão telefônica internacional já havia sido restabelecida.
França, Alemanha e Itália criticaram a repressão aos protestos e afirmaram ter convocado os representantes diplomáticos iranianos nos países para explicações. O secretário-geral da Otan, o holandês Mark Rutte, afirmou que os acontecimentos no Irã são repulsivos. E o primeiro-ministro alemão, Friedrich Merz, declarou que a teocracia iraniana "vive seus últimos dias".
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