
Ao longo de 2025, aproximadamente 2 mil imigrantes buscaram apoio do Governo do Distrito Federal (GDF) para recomeçar a vida na capital do Brasil. Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes), a maioria veio da Venezuela em busca de vida nova e refúgio. Deste total, 868 são venezuelanos. Ou seja, 43,4%.
No recorte de 2025, a pasta concedeu 676 benefícios às famílias de refugiados venezuelanos. A crise humanitária histórica na nação vizinha ficou mais delicada após o ataque dos Estados Unidos (EUA) e a prisão do ditator Nicolas Maduro, em 3 de janeiro de 2026. Por isso, o país passa por uma fase de instabilidade e incerteza.
O Metrópoles conversou com uma imigrante venezuelana acolhida no DF junto com suas três filhas menores de idade. Por segurança, a identitidade dela será preservada. A reportagem irá tratá-la pelo nome fictício de Maria.
Maria vivia na capital Caracas com as três filhas e o ex-companheiro. A família não apoiava a ditadura. “Nós éramos ameaçados pelos apoiadores de Maduro. Quem se levantava contra o regime poderia ser morto”, contou.
Na avaliação dela, apesar da queda de Maduro, a situação da Venezuela não mudou, porque toda a estrurura de poder do regime foi mantida. Para Maria, a situação do país só mudará se o grupo político de María Corina Machado assumir o governo e o Palácio de Miraflores.
Segundo Maria, a rotina era sofrida. A família enfrentava filas para conseguir comida e frequentemente fazia apenas uma refeição por dia. “Não tomávamos café da manhã. Só almoçávamos. Não podíamos comprar um frango. A vida na Venezuela estava muito ruim”, contou.
Maria não conseguia emprego e não havia perspectiva de melhora. E a família não tinha acesso à educação e aos serviços básicos de saúde. “Não havia vacina na Venezuela. Minhas filhas só foram vacinadas quando chegamos ao Brasil, em Pacaraíma (RR)”, lembrou.
Dentro de casa, ela enfrentava outro martírio. “Sofri violência doméstica. Meu marido me batia e me maltratava muito. Me ofendia verbalmente, psicologicamente. Por muitas vezes, fui violentada por ele”, desabafou. Segundo Maria, as agressões físicas e verbais eram feitas na frente das crianças.
Em busca de um novo futuro, a família migrou para o Brasil em 2023. Viveram oito meses em um abrigo em Boa Vista (RR). O ex-companheiro abandonou Maria as filhas. Segundo Maria, ele trocou a família por uma brasileira. Abandonada e sem perspectivas no país, ela conseguiu apoio para chegar ao DF.
Recomeço
Atualmente, todos os refugiados atendidos pelo DF são acolhidos pelo Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) Migrante. Maria passou programa. Recebeu apoio de diversos programas, como o Prato Cheio e o auxílio-aluguel. “Fui muito bem atendida”, resumiu.
Além do apoio financeiro, Maria recebeu ajuda psicossocial para superar os traumas da rotina de violência doméstica. A venezuelana recuperou a independência e passou a viver em Itajaí (SC) com as filhas. E não pretende voltar para a Venezuela. “A vida no Brasil é tranquila. É uma vida boa. Estou bem, graças a Deus”, comentou.
Venezuelanos
Segundo a secretaria de Desenvolvimento Social, Ana Paula Marra, a maior parte do migrantes venezuelanos que busca ajuda é de homens.
“A maioria é de homens que chegam com a esperança de estabilizarem a vida financeira e mandarem dinheiro para a família na Venezuela ou de mães-solo que estão fugindo de alguma situação de violência doméstica que sofreram. Mas todos eles têm em comum o baixo nível educacional e a questão econômica: migram em virtude da pobreza na Venezuela e carência de políticas públicas de saúde ou de combate à fome em seu país de origem”, contou.
Segundo a secretaria, os migrantes são atendidos, conforme os critérios e disponibilidade orçamentária. Havendo recursos disponíveis, são cadastrados em benefícios, como o Prato Cheio. Também são encaminhados para outras políticas públicas de Saúde, Trabalho, entre outras.
A língua e o preconceito são desafios. “A questão da língua, de lidar com outro idioma e decorrências disso. Em muitas vezes, eles têm experiências em algumas funções, mas enfrentam a violações de direitos, como xenofobia e não conseguem colocação no mercado de trabalho”, explicou Marra. Para ajudar os imigrantes na busca por emprego a pasta encaminha o grupo para o Renova DF, por exemplo.
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