
Ao chegar no escritório, na última sexta-feira (17), Carlos Terra Júnior, 50, logo pesquisou a última atualização de uma saga jurídica que se estende há 25 anos. Resultado: a 2ª Turma do Tribunal de Justiça da Bahia negou o pedido da defesa de Fernando Aparecido da Silva e Joel Miranda, que pedia esclarecimentos sobre a decisão que condenou os dois pela morte de Lucas Terra, irmão de Carlos, em 2001.
“O que a família espera é que seja decretada a prisão deles. É um ato que tem que ocorrer de ofício pela Justiça. Até quando? E eu já sei quais vão ser os próximos passos. Completou 25 anos, teremos anos ainda pela frente. E o pior: no júri, foram indeferidas todas as teses da defesa. Por que a Justiça não prendeu?”, afirma Carlos.
Os ex-pastores da Igreja Universal, Fernando e Joel, foram condenados em 2023 por assassinato e ocultação de cadáver. Em 2026, o TJ-BA confirmou a decisão do júri, mas a defesa recorreu da sentença (embargos de declaração).
O primeiro denunciado foi Silvio, que confessou o crime e foi condenado a 19 anos de prisão, pelos crimes de estupro e assassinato. Depois, ele delatou os colegas da Universal, Fernando e Joel. Os três, no entanto, estão soltos.
Desde 2020, Carlos mudou os rumos da própria vida para pedir reparação e justiça pela morte de Lucas, aos 14 anos. O garoto, que tinha o sonho de ser médico e pastor, foi estuprado, queimado vivo e teve o corpo abandonado em um caixote, na Avenida Vasco da Gama. O crime chocou o país.
O produtor de eventos ingressou no curso de Direito para, segundo ele, entender os detalhes das investigações e sentenças judiciais relacionadas à morte do irmão, que havia saído de casa, antes de desaparecer, para ir à igreja, no Rio Vermelho.
“Meu pai queria ser advogado para ter legitimidade. Ele estava estudando para isso quando morreu. Então, talvez seja por isso que eu resolvi me tornar advogado, para dar continuidade àquela luta do meu pai. É para lutar pela minha mãe, pela minha família".
Marion e Carlos iniciaram um périplo por Salvador, que se estendeu a outros estados do país e continentes além do Atlântico, para denunciar o assassinato do caçula e pedir a prisão dos criminosos. Em 2019, o pai de Carlos, que por mais de 20 anos participou dessa mobilização, morreu.
“Ficamos muito abalados. De 2001 a 2019, era praticamente o ofício deles lutar por justiça, não desistir. Minha mãe ficou sozinha. Eu tinha que fazer alguma coisa", conta Carlos.
Processo contra o Estado
Carlos, o primogênito dos três filhos de Marion e Carlos, tinha 25 anos quando o irmão foi assassinado. A família se preparava para migrar para a Itália, onde Marion já trabalhava como cozinheira, acompanhada de duas familiares.
“Um dia, meu pai me liga e diz: Carlinhos, seu irmão saiu, disse que ia à igreja, e não retornou”, lembra Carlos. Foi ele quem, dois dias depois, reconheceu os restos mortais do caçula. Era o início de uma
série
de entraves legais — o enterro, por exemplo, demorou 42 dias para acontecer, já que o Estado não dispunha da tecnologia para realizar exame de DNA em corpo carbonizado. Um laboratório privado custeou o procedimento.Desde então, segundo ele, o que aconteceu foi “um looping de impunidade", com “maneiras de postergar o crime”, como novos recursos e “manobras” judiciais. Um dos crimes cometidos, a ocultação de cadáver, prescreveu devido à demora no andamento do processo.
Em 2013, Fernando e Joel foram inocentados pela juíza Gelzi Almeida. A família de Lucas recorreu e, em 2015, o TJ-BA decidiu que os três acusados iriam a júri popular.
No ano passado, Carlos, já como advogado, processou o Estado da Bahia como representante da mãe, Marion. “Entrei com esse processo justamente para pressionar, para responsabilizar o Estado por essas violações, especialmente contra a minha mãe, que mudou o rumo da existência dela para lutar por justiça, e essa justiça não chegava”.
Carlos passou metade da vida escutando os pais dizerem que “buscariam Justiça até morrer”. “Tem gente que me pergunta: Terra, você vai lutar até quando? Eu vou ser sincero: eu não sei se vou lutar até o último dia da minha vida, mas que eu vou lutar até o último dia de vida da minha mãe, eu vou lutar".
A reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa da Igreja Universal, que não respondeu até o fechamento da publicação Assista o vídeo completo sobre a saga da família Terra em busca de justiça, 25 anos depois do assassinato de Lucas Terra.
Correio
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