
Pelo menos 24 pacientes denunciam ter perdido a visão após participarem de um mutirão oftalmológico realizado em uma clínica particular na cidade de Irecê, no norte da Bahia. Os procedimentos, feitos via Sistema Único de Saúde (SUS), aconteceram entre 28 de fevereiro e 1º de março no Centro Médico e Odontológico (Hospital Ceom), no Centro do município. Desde então, relatos de complicações graves vêm mobilizando pacientes e familiares.
De acordo com o advogado Joviniano Dourado Lopes Neto, que representa 11 dos pacientes afetados, todos eles apresentaram perda de visão após serem submetidos a aplicações intravítreas. O procedimento é considerado seguro e rápido, sendo realizado diretamente no interior do olho.
“Todos os 24 pacientes tiveram perda de visão em pelo menos um dos olhos. Em alguns casos, a perda foi bilateral e há situações em que houve necessidade de retirada do globo ocular”, afirmou o advogado, em entrevista ao CORREIO. Segundo ele, os relatos começaram a surgir de forma gradual, com pacientes indicando outros que enfrentavam o mesmo problema. Ainda assim, muitos não procuraram a Justiça por medo ou falta de informação.
Conforme apurado pela reportagem, os responsáveis pelo estabelecimento possuem ligação com a Prefeitura de Irecê. Dermival Franca Filho, diretor-geral do Ceom, é marido da médica Joelma Matos, que também atende no centro. Ela, por sua vez, é irmã do ex-prefeito Elmo Vaz, que é pré-candidato a deputado federal pelo Avante. O atual prefeito de Irecê, Murilo Franca (PSB), é sucessor de Elmo Vaz.
Em nota, o Ceom informou que realizou 643 procedimentos ambulatoriais e cirúrgicos na unidade de saúde nos dois dias de mutirão. "Tendo sido identificadas ocorrências em 24 pacientes que realizaram a terapia antiangiogênica no acompanhamento pós-procedimento imediato, número que permanece sob monitoramento contínuo pela equipe assistencial", diz.
Segundo o Centro Médico, o tratamento com antiangiogênico no olho é uma injeção intravítrea usada para bloquear o crescimento de vasos sanguíneos anormais e reduzir o vazamento de fluidos na retina.
"Desde a identificação dos casos, todos os pacientes permanecem em acompanhamento ativo, com assistência integral, incluindo avaliações especializadas, terapias medicamentosas e monitoramento evolutivo. Parte significativa dos pacientes já apresenta evolução clínica favorável, com melhora progressiva, conforme registros assistenciais mais recentes", acrescenta (veja o posicionamento completo abaixo).
A Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) também foi procurada, mas não se manifestou sobre o caso até esta publicação.Segundo o advogado Joviniano Dourado Lopes Neto, a Sesab direcionou os pacientes ao mutirão, que realizou os procedimentos de forma gratuita.
Casos graves
Os pacientes, segundo o advogado Joviniano Dourado , desenvolveram um quadro de endoftalmite, uma infecção ocular grave que pode evoluir rapidamente e causar danos permanentes à visão. Ele questiona a forma como os procedimentos foram realizados durante o mutirão, especialmente em relação ao cumprimento dos protocolos de segurança sanitária.
“Foram centenas de atendimentos em um curto espaço de tempo. Cada procedimento exige troca de material estéril, higienização rigorosa e uma série de cuidados. Isso levanta dúvidas sobre a possibilidade de contaminação cruzada”, disse.
Ainda conforme o relato, alguns pacientes enfrentaram dores intensas durante o tratamento posterior e dificuldades para conseguir assistência adequada. Há também casos em que diagnósticos iniciais indicavam ausência de chance de recuperação, mas foram revistos após avaliação em unidades de saúde em Salvador.
Uma paciente de 51 anos, por exemplo, inicialmente informada de que não teria possibilidade de recuperar a visão, conseguiu posteriormente um novo diagnóstico com indicação de tratamento e chance de melhora. “Isso mostra que, além da gravidade da infecção, pode ter havido atraso ou falha na condução dos casos”, pontuou o advogado. Ao menos 11 pacientes devem processar a o Ceom após apresentarem sequelas.
O Centro de Especialidades Odonto – Médica foi fundado em setembro de 2002 na cidade de Irecê. O espaço foi ampliado em 2010 e, desde 2019, funciona também como Day Hospital, com estrutura para a realização de cirurgias.
Caso em Salvador
O caso de pacientes que perderam a visão em Irecê é similar ao registrado neste ano na clínica Clivan, em Salvador. Ao menos 13 pacientes perderam a visão de um dos olhos após participarem de um mutirão de cirurgias de catarata na clínica localizada na Avenida Garibaldi. O espaço segue interditado desde o dia 2 de março.
A pasta informou que segue acompanhando os pacientes submetidos à cirurgia realizada no dia 26 de fevereiro deste ano. Ainda segundo a secretaria, 26 pessoas permanecem em acompanhamento pela rede pública de saúde, sem previsão de alta. A próxima etapa do processo prevê o encaminhamento desses pacientes para reabilitação com uma equipe multiprofissional, como mostrou reportagem do CORREIO.
Fonte:Correio
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