O médico Lucas Neiva e a orientadora 01, Maria Elisa


O médico Lucas Neiva, natural de Jacobina, tem se destacado na área da saúde ao participar de um projeto desenvolvido em Salvador, voltado à ampliação do acesso à dermatologia para pessoas de pele preta e parda. Filho do vereador Carlos de Deus e da contadora Solimar Neiva, o profissional é motivo de orgulho para familiares e para toda a comunidade jacobinense.

De acordo com reportagem do jornal A Tarde, a iniciativa é realizada em um ambulatório especializado na capital baiana, onde, além do atendimento gratuito, são produzidos estudos científicos com foco na identificação de doenças de pele em populações negras.

O projeto busca preencher lacunas históricas na literatura médica e contribuir para diagnósticos mais precisos, diante da escassez de referências voltadas a esses perfis de pacientes.

A pesquisa tem relevância nacional ao colaborar para a construção de uma base de dados mais inclusiva e ao ampliar o conhecimento médico sobre dermatologia em peles pretas e pardas no Brasil.

A atuação de Dr. Lucas Neiva evidencia o papel de profissionais do interior baiano em iniciativas de impacto científico e social, com potencial de influenciar práticas médicas em todo o país.

A ciência por trás da cor e da textura

A principal diferença entre peles negras, pardas e brancas não está necessariamente na doença em si, mas na forma como ela se manifesta. Entenda as diferenças:

  • Sinais inflamatórios: Enquanto na pele branca a inflamação é marcada pelo eritema (vermelhidão), na pele negra ela frequentemente se manifesta através de hiperpigmentação ou tons purpúreos.
  • Resposta ricatricial: A ação mais intensa dos fibroblastos, células responsáveis pelo colágeno, torna o paciente negro mais propenso a queloides.
  • Barreira cutânea: A textura também sofre influência direta da oleosidade e da estrutura dos poros, o que exige uma escolha criteriosa de veículos (cremes, loções ou géis) nos protocolos de tratamento.
Peles negras pode surgir tons acizentados, violáceos ou amarronzados

Peles negras pode surgir tons acizentados, violáceos ou amarronzados | Foto: Reprodução | Freepik

Na prática, isso significa que sinais considerados clássicos podem não aparecer da forma esperada. Em peles claras, processos inflamatórios costumam ser identificados pela vermelhidão. Já em peles negras, esse mesmo sinal pode surgir em tons acinzentados, violáceos ou amarronzados, que podem passar despercebidos.

“O mais comum a ser ignorado é alteração de coloração devido à falta de compreensão que sinais inflamatórios em pele negra tem mais distinção, como a vermelhidão clássica na pele branca”, afirma o médico.

Subnotificação e desafios estruturais

A dificuldade de diagnóstico levanta uma questão ainda mais ampla: o número de casos pode ser maior do que o registrado oficialmente. “Sem dúvida. O diagnóstico diferencial se torna ainda mais difícil quando não há uma base de dados em que o profissional possa se basear”, afirma o médico.

Doenças como vitiligo e psoríase, por exemplo, podem apresentar padrões visuais diferentes em peles com maior melanina, o que contribui para subdiagnóstico.

Já no caso do lúpus, a atenção precisa ser redobrada. Estudos indicam que a doença é mais frequente na população negra, com até 4x mais chances de ocorrência, além de evolução mais rápida e prognóstico mais grave, especialmente em mulheres entre 15 e 45 anos.

Fatores genéticos, ambientais e socioeconômicos também se entrelaçam nesse cenário. “Algumas doenças, a exemplo Lúpus, tem influência genética. Porém, há diversas enfermidades que apresentam agravos devido à condições socioeconômicas, como a maior dificuldade em acesso à saúde e menor renda para custos de tratamento [...] Fatores ambientais, como tabagismo, exposição a raios UVs e infecções também têm papel no desenvolvimento da doença”, explica Neiva.

Vitiligo em uma pele negra

Vitiligo em uma pele negra | Foto: Reprodução | Wikipedia

Formação médica ainda é desafio

Para Neiva, o problema não está apenas no sistema de saúde, mas na base da formação dos profissionais. “A formação em saúde no Brasil, e no mundo como um todo, não abrange suficientemente cuidados dermatológicos com essa população”, afirma.

A proposta do Negro Atlas, nesse sentido, é atuar também como ferramenta educacional, ampliando o acesso a imagens, dados e conhecimento tanto para médicos quanto para pacientes. “Ele vem sendo desenvolvido com o objetivo de promover um cuidado com equidade, como uma fonte de dados, imagens e ensinamentos”, completa.

Como buscar atendimento

O Negro Atlas atua como uma extensão de dermatologia na Escola de Medicina e Saúde Pública (EBMSP), localizado no bairro de Brotas, em Salvador. O acesso é totalmente gratuito e integrado ao Sistema Único de Saúde (SUS). Para ser atendido, o paciente deve realizar o cadastro e a marcação de consulta diretamente na unidade.

Além do atendimento clínico, os pacientes também podem ter acesso a acompanhamento psicológico, quando necessário, dentro do próprio ambulatório.

Já o acervo com imagens e informações sobre doenças dermatológicas em peles negras e pardas pode ser acessado gratuitamente pelo site do projeto.

Fonte:A Tarde