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De cabeça baixa e voz contida, o sargento da Polícia Militar Francisco (nome fictício) fala como se cada palavra exigisse um enorme esforço. É março de 2026, mas a memória insiste em levá-lo de volta a 2021, quando passou 21 dias internado com Covid-19 no hospital da corporação. Foi acompanhado pelo filho Breno Barbosa Diniz, que, na época, fotografou um quadro na parede na unidade de saúde com os dizeres: “Enquanto há vida, há esperança”. Hoje, a frase não faz mais sentido para o pai.

Ele já não tem esperança de encontrar o filho vivo. Quer apenas recuperar o corpo de Breno, de 24 anos, que desapareceu em 19 de fevereiro na Cidade de Deus, Zona Sudoeste do Rio, onde atuava como gerente do tráfico de drogas. A angústia de Francisco diante da falta de respostas sobre o paradeiro do jovem se mistura ao temor de que a própria farda possa ter contribuído para a morte do filho.

Dez pontos de venda

O rapaz ocupava uma função de destaque no tráfico local: era gerente de uma boca de fumo no conjunto habitacional conhecido como AP (Apartamentos) da Cidade de Deus, onde nasceu e foi criado. Cabia a ele coordenar a venda de drogas em pelo menos dez pontos e monitorar a movimentação policial no entorno da comunidade. No dia seguinte ao desaparecimento, parentes ouviram de traficantes da região que Breno foi considerado “X9”, termo usado para rotular informantes.

Francisco não conseguiu escolher a foto do filho para o cartaz de desaparecido, feito pela família em busca de informações sobre a localização de Breno. Sempre que olha para uma imagem do rapaz, segura a fotografia com força e começa a chorar. Mas logo a couraça dos 15 anos de Polícia Militar toma conta e o policial se recompõe. Breno é um dos 19 filhos de Francisco e, segundo o pai, era uns dos mais próximos:

— Foi um dos filhos que mais se preocupou comigo (durante a internação). Ficou em casa cuidando dos outros irmãos do casamento atual para que minha esposa pudesse me acompanhar no hospital.

O jovem, diz Francisco, era estudioso na infância, tirava boas notas e concluiu o ensino médio. Foi um adolescente brincalhão e atrevido, mas nunca causou preocupação à família. Para o pai, Breno acabou sendo iludido pela criminalidade e pela sensação de poder.

— O que aconteceu com meu filho foi ilusão, que é o que acontece com esses adolescentes. É decepcionante, principalmente porque ele tinha estudo e podia ter corrido atrás de coisas honestas. Ele não tinha motivo para entrar nesse mundo. Ele não precisava — afirma.

O policial conta que desconfiou do envolvimento de Breno com o tráfico em 2023 e tentou convencê-lo a se afastar de alguns amigos e ir morar com ele em uma cidade do interior. Não conseguiu. 

Fonte:Extra o Globo