As declarações do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal
(STF), no Roda Viva, da TV Cultura, ultrapassaram os limites impostos a
magistrados pela Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman), na
avaliação de juristas ouvidos pelo Estadão. A norma veda a juízes
comentar publicamente processos pendentes de julgamento ou fazer juízo
depreciativo sobre decisões judiciais.
Na entrevista, Gilmar
criticou a atuação de André Mendonça no caso Banco Master, questionou o
momento escolhido por Edson Fachin para propor um código de ética no STF
e afirmou que a Corte não deve manter a decisão de Kassio Nunes Marques
que suspendeu uma pesquisa da AtlasIntel no Tribunal Superior Eleitoral
(TSE).
Procurado por meio de seu gabinete para comentar a
avaliação de juristas, Gilmar Mendes ainda não se manifestou. O espaço
está aberto.
O ponto central da regra é preservar a
imparcialidade e a aparência de neutralidade dos magistrados diante de
casos ainda em andamento. Pela Loman, manifestações sobre processos e
decisões de colegas só são admitidas em situações específicas, como
dentro do próprio processo, em obras técnicas ou no exercício do
magistério.
"Em síntese, no caso, o ministro Gilmar Mendes violou
a Loman e a ética. Dupla infração. Na sua entrevista, colocou ainda sob
suspeita de nulidade os atos praticados pelo relator Mendonça", avalia o
jurista e ex-desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo Wálter
Maierovitch.
Para Maierovitch, as declarações de Gilmar tornam
contraditória a resistência do ministro à proposta de criação de um
código de ética no STF. O jurista argumenta que Gilmar justificou sua
posição citando a existência de regras já previstas na Loman, mas
acabou, na própria entrevista, tensionando os limites impostos pela lei
complementar aos magistrados.
Maierovitch lembra que a Loman
proíbe manifestações, fora dos autos, sobre decisões, despachos e a
forma de condução de processos por outros magistrados. Para o jurista, a
antiguidade de Gilmar na Corte não lhe confere autorização para
comentar publicamente a atuação de colegas. "O ministro Gilmar Mendes
não é o juiz dos juízes. Nem, pela antiguidade, pode se considerar o
primus inter pares [primeiro entre iguais]. Como decano, não está
autorizado a descumprir os deveres da Loman", afirma.
Durante a
entrevista, Gilmar afirmou haver "impropriedade" e "erro crasso" no
relato feito por Mendonça de que foi procurado por um advogado de Daniel
Vorcaro com uma proposta de "delação seletiva". O decano disse que a
lei não permite que o relator ou o juiz participem de tratativas de
colaboração premiada, que devem ser conduzidas pelo Ministério Público
ou pela Polícia Federal. "Se está participando de conversas ou se está
expulsando advogados do processo, isso tem algo de errado", afirmou.
Na
semana passada, Gilmar protagonizou um embate público com Mendonça no
julgamento de medidas cautelares envolvendo a manutenção da prisão de
Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro. Na ocasião, o relator disse ter
recusado uma proposta de "delação seletiva" feita por um advogado do
ex-controlador do banco, afirmando não aceitar esse tipo de negociação.
O
processo sobre o Master é julgado na Segunda Turma do STF, colegiado
composto por André Mendonça, Gilmar Mendes, Kassio Nunes Marques, Luiz
Fux e Dias Toffoli. Toffoli não vota no processo. Ele se declarou
suspeito após a divulgação dos negócios que fez no resort Tayayá, caso
revelado pelo Estadão.
Durante a entrevista, Gilmar também
comentou o andamento do caso Master e voltou a traçar paralelos com a
Operação Lava Jato. O decano apontou uma sequência de episódios que,
segundo ele, acende um alerta sobre a condução da investigação, como
vazamentos e prisões de familiares de investigados. "São elementos que
levam a, pelo menos, uma preocupação e similitudes com o que ocorreu
anteriormente", afirmou.
Na avaliação de Maierovitch, as falas de
Gilmar também podem ter reflexo sobre o próprio caso Master, ao lançar
dúvidas sobre atos praticados pelo relator André Mendonça.
"O
ministro Gilmar Mendes, inventor do habeas corpus canguru para decidir
pulando instâncias e o devido processo, apresenta-se como falso
garantista. Ou melhor, garantista seletivo, garante poderosos. No
escândalo Vorcaro espalhou o joio para, num futuro próximo, colher-se
nulidades, com a desmoralização do próprio STF. De novo, o ministro
prestou um desserviço à Justiça", avalia.
Para Luiz Gomes
Esteves, professor do Insper, as falas são problemáticas por dois
motivos: podem contrariar a proibição prevista na Loman e levantar
dúvidas sobre a imparcialidade do ministro em processos que ainda podem
voltar à análise do Supremo. Para o professor, ainda que Gilmar não
tenha tratado diretamente do mérito das ações, manifestações desse tipo
podem indicar uma inclinação em favor de uma das partes. "Esses
comentários são impróprios para um magistrado", afirma.
As
críticas de Gilmar, porém, não ficaram restritas a Mendonça nem ao caso
Master. Ao longo da entrevista, o decano também mirou decisões e
movimentos de outros ministros em temas sensíveis para o STF e para a
Justiça Eleitoral.
Gilmar voltou a criticar o momento escolhido
pelo presidente do STF, Edson Fachin, para propor a discussão sobre a
criação de um código de ética para ministros da Corte. Para o decano, o
tema deveria ser tratado por uma comissão interna do tribunal e
precedido de maior articulação entre os integrantes do Supremo.
Gilmar
criticou também a decisão do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques,
que suspendeu a divulgação de uma pesquisa da AtlasIntel sobre a disputa
presidencial de 2026. O levantamento foi questionado pelo PL sob o
argumento de que o questionário induzia respostas contra Flávio
Bolsonaro ao associar o senador a Daniel Vorcaro e ao caso Banco Master.
"Mantendo-se
essa jurisprudência Nunes Marques, já até adivinho que haverá
reclamações aos borbotões no Supremo Tribunal Federal alegando, no
mínimo, a tal ADPF 130, da liberdade de expressão. Certamente não é uma
jurisprudência que vai se manter", declarou
Ainda no Roda Viva,
Gilmar criticou o TSE por não ter concluído a tempo o julgamento
envolvendo o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, o que,
segundo ele, criou um impasse na sucessão no cargo. Na época, o tribunal
era presidido por Cármen Lúcia.
Para o criminalista Renato
Vieira, ex-presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais
(IBCCRIM), as declarações de Gilmar se inserem em um movimento mais
amplo de integrantes da cúpula do Judiciário que passaram a atuar como
uma espécie de "ombudsman da República", comentando publicamente o
funcionamento das instituições, eventos dos quais participam e processos
ainda em curso.
Para ele, esse tipo de postura se torna
especialmente delicado quando envolve casos pendentes de julgamento e
colegas da própria turma julgadora, como no caso do Banco Master. "O que
se espera da postura de um magistrado é comedimento, serenidade e
equidistância entre os interesses envolvidos. E, antes de tudo isso,
liturgia com relação ao papel de cada um dos integrantes da própria
turma julgadora", afirma.
Por Hugo Henud, Estadão Conteúdo
0 Comentários