A advogada Maria Mariana Batista de Oliveira, presa na última sexta-feira (6), foi alvo inicial e principal nas investigações da Operação Sintonia de Gravata. A ação foi deflagrada na última sexta-feira (3) para desarticular um esquema de comunicação entre facções como Comando Vermelho, Bonde do Maluco e o Terceiro Comando Puro (TCP) com integrantes que atuavam dentro e fora do sistema prisional baiano.

Bahia Notícias obteve acesso nesta segunda-feira (6), a decisão e a denúncia das investigações efetuadas pelo Ministério Público, por meio do Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) do MPBA, em conjunto com a Secretaria de Segurança Pública (SSP), por meio da Polícia Civil e da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap).

Conforme os documentos, as autoridades chegaram até aos presos após o encontro fortuito de provas. Os órgãos chegaram aos investigados após a justiça autorizou o monitoramento de ligações e de imagens de câmeras de seguranças de presídios da Bahia, como o presídio de Serrinha. O alvo local e inicial nas apurações, que fez com que a polícia chegasse aos outros presos, foi a advogado Maria Mariana Batista de Oliveira.

A captação foi instalada no parlatório do Conjunto Penal de Serrinha, uma unidade de segurança máxima. Na ocasião, foi monitorada as visitas dela a chefes de facções criminosas.

No ato, foi visto que a advogada conversava com seu cliente preso sobre a preparação de cocaína para venda. Ela foi apontada ainda com  um papel de intermediária do Comando Vermelho (CV) após a prisão de outro advogado. Suas condutas incluíram levar recados escritos para o traficante Fábio Panda sobre o acondicionamento de cocaína em “pinos”, distribuição e preços de venda.

Enquanto as autoridades colhiam evidências sobre Maria Mariana, o equipamento de escuta capturou a atuação de outros advogados e internos que utilizavam o mesmo espaço para as mesmas práticas ilícitas: servir de elo de comunicação para o crime organizado.

Entre esses estavam o advogado Ícaro Cardoso Viana. Ele foi o principal réu identificado por meio do encontro de provas. As gravações revelaram que ele executava o mesmo “expediente” de Maria Mariana, abusando de suas prerrogativas profissionais para transmitir decisões estratégicas de dentro da prisão para o mundo exterior

CONTEÚDOS DAS PROVAS COLHIDAS
As provas encontradas pelas autoridades possuíam diferentes conteúdos. No dia 2 de outubro de 2025, a escuta registrou Ícaro recebendo ordens do interno Gledson Bonfim do Nascimento para que uma tia deste buscasse duas pistolas com um comparsa e realizasse a entrega de entorpecentes.

Já no dia 7 de outubro de 2025, ele foi flagrado em reunião com outros detentos da facção BDM (Bonde do Maluco), tratando da distribuição de “material” (drogas) e da urgência em repor estoques de “chá” (maconha). O encontro fortuito permitiu ao GAECO confirmar que a infiltração de advogados no sistema prisional para fins criminosos não era um fato isolado de uma única pessoa, mas sim um método sistêmico utilizado por diferentes facções, a exemplo do Comando Vermelho e o BDM para manter suas cadeias de comando ativas.

Essas evidências captadas por acaso foram consideradas fundamentais para demonstrar que os advogados denunciados atuavam como “engrenagens indispensáveis” ao funcionamento das organizações criminosas.

RELEMBRE A OPERAÇÃO
A operação do Ministério Público da Bahia (MP-BA), com o apoio da Polícia Civil e da Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização, prendeu dez advogados e cumpriu mandados contra 12 detentos na última sexta-feira (3).

Segundo o MP-BA, durante o cumprimento das medidas judiciais, foram apreendidos notebooks, celulares e documentos diversos que poderão contribuir para o aprofundamento das investigações e para a identificação da eventual participação de outros envolvidos.

De acordo com os promotores de Justiça do Gaeco, as investigações identificaram a atuação de facções criminosas estruturadas e com atuação regional, responsáveis pela prática de tráfico ilícito de entorpecentes, circulação de armas de fogo e articulação entre grupos criminosos, com reflexos diretos na segurança pública baiana.

Os elementos reunidos indicam que essas organizações mantinham um sofisticado esquema de comunicação clandestina que permitia a continuidade das atividades criminosas mesmo com lideranças custodiadas em unidade prisional de segurança máxima, por meio de um núcleo externo responsável por intermediar a transmissão de ordens entre integrantes presos e membros em liberdade.

No âmbito das medidas cautelares deferidas judicialmente, foi determinada a indisponibilidade de ativos financeiros dos investigados, até o limite mínimo de R$ 10 milhões, além do bloqueio de veículos, bens imóveis, embarcações e aeronaves dos investigados, com o objetivo de impedir a movimentação de recursos vinculados às atividades ilícitas.

Participaram da operação mais de 100 profissionais, dentre eles promotores de Justiça, servidores e policiais do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) do MPBA, além de integrantes do Departamento Especializado de Investigação e Repressão ao Narcotráfico (Denarc) e Departamento de Polícia do Interior (Depin) da Polícia Civil da Bahia, Seap e SSP.

A Operação Sintonia de Gravata integra uma mobilização nacional coordenada pelo Grupo Nacional de Combate às Organizações Criminosas (Gncoc), do Ministério Público brasileiro, com o objetivo de intensificar o enfrentamento às facções criminosas em todo o país.

*Por Bahia Notícias