A investigação da Polícia Federal sobre suspeitas de tráfico de influência de Fábio Luís Lula da Silva, filho mais velho do presidente da República, aponta que Lulinha é citado em diálogos como “destinatário de pagamentos e de benefícios” custeados por um empresário que tentou obter contratos na Dataprev, empresa de tecnologia do governo federal, e que possuía contratos milionários no Ministério do Desenvolvimento Social (MDS).
As informações obtidas a partir da quebra de sigilo da lobista Roberta Luchsinger apontam, segundo a PF, que ela foi contratada pelo empresário Cléber Ribas para intermediar os interesses de suas empresas, do setor de tecnologia, com órgãos da administração pública federal e de outras esferas. Nas conversas, Roberta solicita a Cléber Ribas pagamentos e cita que os valores serviriam para bancar despesas de Lulinha.
A PF cita ainda que Lulinha teve participação direta na intermediação dos negócios de Cléber, participou de reuniões com agentes públicos em defesa dos interesses do empresário e pediu a Roberta a emissão de notas fiscais para o recebimento de pagamentos do empresário.
“Fabio surge em diversos momentos associado a reuniões de interesse empresarial, é mencionado como destinatário de pagamentos e benefícios custeados por terceiros, participa de discussões sobre a condução dos negócios desenvolvidos pelo grupo e, ao menos em uma oportunidade, intervém diretamente em questão relacionada à emissão de nota fiscal destinada a Cleber Ribas de Oliveira. Tais circunstâncias, consideradas em conjunto, constituem indícios de efetiva participação de Fabio nas atividades desempenhadas pela associação informal investigada, recomendando o aprofundamento das diligências para esclarecer o seu papel, eventual responsabilidade e possível vantagem auferida no contexto dos fatos ora apurados”, diz relatório da Polícia Federal obtido pelo jornal O Estado de São Paulo.
A PF abriu um inquérito específico para apurar as suspeitas envolvendo a intermediação de negócios de Cléber Ribas junto à Dataprev. Além disso, a corporação abriu uma investigação sobre suspeitas na atuação de Roberta e Lulinha junto ao Ministério da Saúde e uma terceira apuração envolvendo outras áreas do governo.
Os indícios colhidos na apuração preliminar sobre a Dataprev são considerados mais robustos pelos investigadores do que os do caso do Ministério da Saúde, porque se reverteram efetivamente em contratos do empresário com o governo federal e governos estaduais, além de terem resultado em pagamentos milionários a Roberta Luchsinger.
Nessa investigação, a PF identificou que Cléber Ribas firmou contrato com Roberta Luchsinger para defesa dos seus interesses e pagou ao menos R$ 2,5 milhões à lobista entre março de 2024 e dezembro de 2025.
Em troca, Roberta marcou reuniões com integrantes da Dataprev e com outros agentes públicos em defesa dos interesses de Cléber Ribas, segundo a PF.
Em junho de 2023, Roberta enviou uma mensagem de WhatsApp a Cléber Ribas com uma lista de todas ações que estava tomando em defesa do empresário. Veja a mensagem:
“Marquei semana q vem Geap p vc tb
Amanhã Julio
Portos e aeroportos
Correios
E aguardando Dataprev confirmar
Agora tô indo p mds... mas acho q vai dar certo
Mas fique tranquilo q a expectativa é mto boa
Só vc p me fazer o q fiz... vamos aguardar agora à tarde o resultado
Mas eu envolvi o palácio
Depois te conto pq tô numa mesa com 10″.
Roberta fez 17 visitas ao Ministério do Desenvolvimento Social em 2023 e 2024. O MDS foi citado nessa conversa de Roberta com Cléber Ribas como um dos locais onde ela estava defendendo as empresas do cliente. Meses depois, em dezembro de 2023 e abril de 2024, sua empresa 3Structure obteve contratos de R$ 14,4 milhões e R$ 19,2 milhões com o MDS.
Nas conversas com Cléber, Roberta solicitou diversas vezes o pagamento de notas fiscais mencionando que seriam para Lulinha. Em setembro de 2023, por exemplo, a lobista disse ao empresário: “E me avisa lá tb do pagamento do Fábio q ele me perguntou pq ele vai viajar”.
Semanas depois, Roberta fez nova cobrança de outra nota fiscal. “Qdo fizer me avisa por favor pq ele perguntou aqui”. A PF afirma que, apesar de não ser mencionado nominalmente, a hipótese mais provável é que “ele” seja uma referência a Lulinha.
Em uma outra mensagem de Lulinha com Roberta, ele mesmo pediu a ela que emitisse uma nota fiscal a Cleber Ribas. “Emite a NF pro Cleber”, disse Lulinha, conforme mensagem divulgada inicialmente pelo portal Metrópoles.
Em agosto de 2025, Roberta perguntou a Cleber sobre o pagamento de uma outra pessoa de nome “Freitas”, que também era intermediado pelo empresário. Ela citou que os valores seriam usados para comprar passagens aéreas para Lulinha.
“Bom dia, tudo bem? Deixa eu te falar, o Freitas paga quando? Aí será que ele não paga hoje não? Tem que pagar essa bosta dessas passagens pro Fabio, aí vai pagar com o dinheiro do Freitas, tá foda”, afirmou, em mensagem de áudio.
Para a PF, essa mensagem indica que Lulinha usava a empresa de Roberta para custear suas despesas.
“No dia 25/8/2025, Roberta encaminha mensagem de áudio a Cleber com a finalidade de questionar quando Freitas irá efetuar o pagamento. Conforme afirmação de Roberta, Fabio necessita do dinheiro para compra de passagens para a Espanha. Essas mensagens podem corroborar com a afirmação de que Fabio se utilize financeiramente dos pagamentos efetuados para a empresa RL Consultoria e intermediações, empresa vinculada a Roberta”, escreveu a PF.
‘Cuida das minhas finanças’
Diálogos mostram ainda que Lulinha admitiu que a lobista Roberta Luchsinger era responsável por “cuidar” de suas finanças. Para a Polícia Federal, os indícios colhidos na investigação mostram que Lulinha tinha conhecimento de que o pagamento de suas despesas era proveniente de empresários com interesses em negócios no governo de seu pai, já que ele chegou a determinar a emissão de notas fiscais.
As conversas foram transcritas pela PF em relatórios para abertura de inquérito contra Lulinha, Roberta e outros suspeitos de tráfico de influência no atual governo federal. A PF identificou que Roberta recebeu ao menos R$ 4 milhões desses empresários.
Um dos diálogos ocorreu em 4 de maio de 2024. Na ocasião, Lulinha conversou com Roberta sobre o planejamento de uma viagem deles com seus familiares para a África. Ao discutirem os custos, Lulinha chegou a dizer: “A gente tem grana pra bancar essas coisas? Vc q cuida das minhas finanças”.
Leia trechos desse diálogo:
Fábio Silva - Lula (13h15): Faz a conta por pessoa
Roberta Luchsinger (13h16): 42 dividido por 7 pessoas
Fábio Silva - Lula (13h16): 6k
Roberta Luchsinger (13h18): Isso. No mais top em uma cabana de 300 m. No mais simples é 7 mil euros a sua família e 7 mil euros a minha. Dá 21 pra cada. Entre a gente tranquilo
Fábio Silva - Lula (13h18): A gente tem grana pra bancar essas coisas? Vc q cuida das minhas finanças
Roberta Luchsinger (13h18): Temos
Fábio Silva - Lula (13h19): Faz o que for melhor pras crianças então
Roberta Luchsinger (13h19): Vamos no melhor né
Em uma outra conversa sobre uma viagem a Genebra, na Suíça, em janeiro de 2024, Lulinha novamente expressou preocupação com as despesas e disse não ter “origem” comprovada de recursos para bancar a viagem.
No dia 18 de janeiro de 2024, às 12h28, ele disse não estar “confortável” com a viagem e relatou estar preocupado com uma exposição midiática negativa. “Então... deixa eu te falar... não estou nada confortável com essa viagem... Não acho que devíamos fazer nesse momento”, afirmou a Roberta.
Ela, então disse que o valor total da viagem seria de 100 mil, sem especificar a moeda. Lulinha, novamente, ponderou que o momento era inadequado. “Roberta... a gente tá se arriscando... Não precisa... É só esperar uns poucos meses e poderemos fazer isso sem medo de nada”, escreveu.
Lulinha perguntou se o valor estimado era o total para oito pessoas, mas Roberta então disse que seria um valor estimado de 100 mil por pessoa. O filho do presidente, então, novamente discordou da ideia. “Então meu amor... Eu não tenho nem dim dim nem origem pra isso... Não dá preu gastar esse tanto agora... Qualquer merda não tem explicação nenhuma”, afirmou.
Por fim, eles combinaram de conversar pessoalmente sobre o assunto, mas Roberta terminou a conversa dizendo que não haveria problema em fazer a viagem desde que ninguém publicasse nada nas redes sociais. “Mas de boa, realxa.. não vai dar problema. As pessoas podem ser convidadas de amigos ué. É só ninguém postar nada em redes e nem falar onde é”, escreveu.
Por Aguirre Talento/Gustavo Côrtes/Estadão
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