José Alexandre e Lucas dos Reis foram mortos no domingo (23)

“Se eu visto uma camisa, eu tenho que ser morta ou matar alguém por conta disso? Claro que não! A gente não pode banalizar a vida dessa forma.” A declaração, feita pela esposa de José Alexandre Souza Borges, resume a indignação provocada pelas duas mortes registradas no último domingo (23), dia de Ba-Vi. José e Lucas dos Reis Bonfim, ambos integrantes da torcida organizada Bamor, morreram após episódios de violência atribuídos a supostos membros da Torcida Uniformizada Os Imbatíveis (TUI), em áreas próximas ao Barradão.

Os casos reacenderam uma discussão que se arrasta há quase uma década na Bahia: a torcida única é capaz de reduzir a violência relacionada ao clássico ou os confrontos apenas foram deslocados para fora dos estádios?

Desde 2018, Bahia e Vitória não disputam o clássico com as duas torcidas presentes nas arquibancadas. Considerando o jogo do último domingo, foram 28 partidas nesse período. O número chega a 34 quando incluídos os confrontos de 2017, quando a medida foi adotada inicialmente. A decisão ocorreu após episódios de violência, incluindo o chamado “Ba-Vi da Paz”, em fevereiro daquele ano, que terminou aos 34 minutos do segundo tempo, com nove jogadores expulsos e registros de agressões entre integrantes de organizadas na região da Baixa do Sapateiro.

Violência longe dos estádios

Apesar da restrição, episódios envolvendo torcedores continuam sendo registrados em diferentes pontos de Salvador. Dados levantados pelo Globo Esporte apontam seis mortes relacionadas ao futebol entre 2017 e 2026. Desde 2006, são 15 mortes confirmadas no estado.

O relatório anual de 2025 do Observatório Social do Futebol, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), reforça a dificuldade de conter a violência apenas com a separação das torcidas. Segundo o levantamento, 54,8% dos casos de violência física analisados ocorreram fora das praças esportivas: 33,5% em locais completamente afastados dos estádios e 21,3% nos arredores das arenas, em um raio de até cinco quilômetros.

Para o professor de Direito e coronel reformado da Polícia Militar Antônio Jorge Melo, a comparação com outros grandes clássicos brasileiros exige cautela. Segundo ele, a rivalidade entre Bahia e Vitória é potencializada pelo fato de os dois clubes concentrarem grande parte da representatividade do futebol baiano.

«“Alguns se aproveitam dessa rivalidade como um mecanismo de exteriorizar a sua agressividade e a sua violência, é uma coisa que chega a ser irracional”, afirma.»

Em outros estados, clássicos como Flamengo x Fluminense, Atlético-MG x Cruzeiro e Grêmio x Internacional mantêm, em determinadas ocasiões, a presença das duas torcidas. Na Bahia, entretanto, tentativas de flexibilizar a torcida única não avançaram.

Retorno da torcida mista ainda é incerto

Em fevereiro deste ano, antes da segunda partida da final do Campeonato Baiano, o presidente do Vitória, Fábio Mota, solicitou ao Ministério Público da Bahia (MPBA) a presença da torcida rubro-negra no jogo realizado na Fonte Nova. Torcedores também recorreram à Justiça, mas os pedidos foram rejeitados. O Bahia se posicionou favoravelmente à manutenção da torcida única.

Em 2024, o MPBA chegou a projetar o fim do modelo para 2025. A possibilidade, porém, ficou condicionada à resolução de problemas de logística, acessibilidade, transporte, segurança e atendimento médico nos arredores da Fonte Nova e do Barradão.

Para Antônio Jorge Melo, os episódios do último domingo tornam uma eventual flexibilização ainda mais distante. Na avaliação dele, o enfrentamento à violência passa principalmente pela responsabilização dos envolvidos.

“O futebol reflete a violência geral que nossa sociedade está vivenciando. Uma forma de lidar com isso é pôr fim à impunidade”, afirma.

O governador Jerônimo Rodrigues (PT), torcedor do Vitória, já se manifestou contrário à torcida única. Em março, classificou o modelo como “injusto” do ponto de vista esportivo e afirmou que, se a Polícia Militar consegue garantir a segurança de milhões de pessoas durante o Carnaval, também teria condições de atuar em um Ba-Vi.

O especialista, contudo, ressalta que os eventos apresentam dinâmicas diferentes. No Carnaval, segundo ele, apesar dos episódios de violência, não existe a mesma rivalidade entre grupos que caracteriza um clássico de futebol.

Casos recentes mostram persistência do problema

Além das mortes de José Alexandre e Lucas dos Reis, outros episódios recentes evidenciam a persistência dos confrontos entre torcidas organizadas.

No fim de julho, uma briga entre integrantes da Bamor e da TUI, no final de linha de Jardim Cajazeiras, terminou com nove pessoas detidas, incluindo dois adolescentes. Uma bomba caseira e outros objetos utilizados nas agressões também foram apreendidos.

Em setembro de 2022, uma briga entre grupos ligados às torcidas de Bahia e Vitória, no bairro de São Caetano, deixou três pessoas feridas e 53 detidas.

Após as mortes do último domingo, a Bamor divulgou nota repudiando qualquer forma de violência e afirmou não compactuar com o uso de armas de fogo, armas brancas ou outros instrumentos para promover agressões. A torcida também cobrou a apuração rigorosa dos fatos.

A TUI afirmou que “quando morre um membro de uma torcida organizada, todas sangram” e defendeu a apuração dos acontecimentos e a adoção de medidas para evitar novos episódios.

Segurança envolve diferentes órgãos

A organização da segurança dos Ba-Vis envolve clubes, Ministério Público, Polícia Militar e Federação Bahiana de Futebol, além de outros órgãos públicos. Antes das partidas, são realizadas reuniões para definir estratégias de policiamento e logística.

No clássico do último domingo, a Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) empregou mais de 400 policiais militares no Barradão e no entorno do estádio. Segundo o comandante do Batalhão Especializado em Policiamento de Eventos (BEPE), tenente-coronel Flávio Góes Farias, a estratégia é elaborada a partir de dados do setor de inteligência da SSP e de informações fornecidas pelas próprias torcidas sobre pontos de concentração.

Apesar do planejamento, o comandante afirmou que grupos de torcedores se deslocaram para outras áreas de Salvador, algumas delas com presença de integrantes de facções criminosas, segundo a polícia.

Em nota, o MPBA condenou os atos de violência e vandalismo relacionados ao clássico e lamentou as duas mortes. Bahia e Vitória também repudiaram os episódios. O Bahia afirmou que o futebol não pode ser utilizado como justificativa para atos criminosos, enquanto o Vitória declarou que os acontecimentos não representam o clube ou sua torcida.

Reuniões entre os órgãos envolvidos devem ocorrer nesta semana para avaliar os episódios e discutir novas medidas de segurança. O próximo Ba-Vi está previsto apenas para 2027, mas o debate sobre a presença das duas torcidas nos estádios permanece sem definição. Enquanto isso, as mortes de José Alexandre e Lucas dos Reis recolocam uma questão central no futebol baiano: como garantir que a rivalidade permaneça dentro de campo sem transformar o caminho até ele em um risco para os torcedores.

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