Conheça os deputados da Bahia campeões em reeleição e que não querem largar o osso

Há profissões em que 20, 30 ou 40 anos de carreira são considerados uma eternidade. Na política baiana, podem ser apenas o tempo necessário para descobrir que uma cadeira de parlamentar em Brasília ou Salvador pode ser bastante confortável quando se consegue transformá-la em patrimônio eleitoral.

Na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa da Bahia (Alba), uma turma de parlamentares atravessa décadas de eleições sentado no mesmo lugar. E de lá a imensa maioria não pretende sair. Afinal, deputado não tem limite de reeleição, recebe salário alto, tem à disposição estrutura de gabinete, grana farta para todo tipo de mordomia, de gasolina a aluguel de avião, assessores e uma série de prerrogativas que tornam a atividade política bem mais atraente do que a vida de quem precisa bater ponto.

Comissão de frente

Na Câmara, o campeonato da longevidade é liderado por José Rocha (União Brasil) e Cláudio Cajado (PP), com oito mandatos cada. Os dois chegaram a Brasília em 1995 e atravessaram nada menos que 31 anos de Congresso. Como era de se esperar, Cajado concorre ao nono. Rocha, entretanto, decidiu parar. É uma rara exceção entre os veteranos: não disputará a eleição deste ano e tenta transferir o espólio eleitoral para o filho, Manuel Rocha, deputado estadual pelo União Brasil, e agora candidato a federal.

Logo atrás aparecem Paulo Magalhães e Sérgio Brito, com sete mandatos. Ambos são filiados ao PSD e representam outro traço comum da velha guarda: a capacidade de sobreviver a mudanças de governo, alianças, partidos e conjunturas políticas. Brito, aliás, teve uma carreira parlamentar com interrupções, mas voltou à Câmara e permaneceu no jogo. Magalhães também atravessou diferentes siglas até encontrar abrigo no PSD.

Tropa da longevidade

Com seis mandatos, estão Alice Portugal (PCdoB), Daniel Almeida (PCdoB) e João Leão (PP). Alice e Daniel formam uma dupla longeva do PCdoB baiano, enquanto Leão é outro exemplo da capacidade de adaptação da política profissional: passou por diferentes posições de poder, foi vice-governador duas vezes e agora também decidiu não disputar novamente a Câmara, preferindo preparar a sucessão política familiar, com seu filho, Cacá Leão (PP), de volta ao páreo.

A faixa seguinte reúne João Carlos Bacelar (PL), Márcio Marinho (Republicanos), Antonio Brito (PSD), Arthur Maia (União Brasil), Félix Mendonça Júnior (PDT) e Lídice da Mata (PSB). São quatro ou cinco mandatos, dependendo do parlamentar e do critério utilizado para contabilizar períodos efetivamente exercidos. O ponto em comum é mais interessante que a aritmética: todos transformaram a permanência no Legislativo em carreira de longo prazo. E, onde existe carreira, costuma existir também uma estrutura política montada para mantê-la.

Latifúndio dominado na Alba

Na Assembleia Legislativa, o recorde atual é de Nelson Leal, com sete mandatos consecutivos. Em outro caso raro, Leal também resolveu sair da disputa de 2026, após 28 no Legislativo. Depois de romper com o grupo do governador Jerônimo Rodrigues (PT), aderiu à oposição e assumiu a coordenação da campanha de ACM Neto (União Brasil) ao governo estadual.

Na sequência, vêm José de Arimateia (Republicanos), Roberto Carlos (PV) e Sandro Régis (União Brasil), com seis mandatos cada. Logo abaixo, aparecem Adolfo Menezes (PSD), Euclides Fernandes (PT), Fátima Nunes (PT), Maria del Carmen (PT) e Neusa Cadore (PT), com cinco.

A faixa dos parlamentares com quatro mandatos tem a atual presidente da Alba, Ivana Bastos, mais os petistas Rosemberg Pinto e Zé Raimundo. Fora Leal e Adolfo Meneses, que foi nomeado para o Tribunal de Contas dos Municípios (TCM), todos os demais tentarão se perpetuar na Alba, onde a longevidade não tem ideologia e nem partido.

Há veteranos na direita, no centro e na esquerda e em praticamente todos os partidos de expressão. O que parece importar mais do que a sigla é a capacidade de construir uma rede eleitoral suficientemente forte para sobreviver a quatro anos de mandato e tentar mais quatro.

Vantagem dos veteranos

Existe uma explicação simples para a longevidade de parte dos deputados baianos. É que o parlamentar veterano conhece o caminho das emendas, domina os corredores do poder, mantém prefeitos e vereadores aliados, distribui recursos para suas bases e acumula uma rede que torna cada eleição seguinte um pouco mais previsível.

Há uma diferença entre longevidade política e desempenho parlamentar. Muitos mandatos não significam necessariamente muitos resultados. Mas revelam algo sobre o modelo político: quem consegue entrar no circuito e construir uma máquina eleitoral pode permanecer nele por décadas.

No fim das contas, o eleitor pode até trocar o deputado na urna. O deputado, porém, frequentemente faz o possível para que a cadeira continue sendo dele — ou, quando chega a hora de sair, de alguém da família

Fonte:Metro 1