
Perder o acesso a uma rede social pode ser apenas o começo de um problema maior, principalmente entre adolescentes. Criminosos têm utilizado golpes de engenharia social para assumir o controle de perfis, alterar senhas e dados de recuperação e, depois, exigir dinheiro para devolver a conta.
O chamado “sequestro digital” nem sempre depende de uma invasão sofisticada. Em muitos casos, o próprio usuário acaba entregando as credenciais ao criminoso depois de receber uma mensagem falsa. O contato pode chegar por mensagem privada, e-mail ou outro canal, com diferentes pretextos para convencer a vítima a agir rapidamente.
Entre as justificativas usadas pelos golpistas estão supostas violações de direitos autorais, denúncias contra o perfil, necessidade de confirmar a identidade, problemas de segurança, prêmios ou convites para parcerias.
Como os criminosos conseguem a senha
Uma das estratégias mais comuns é criar uma situação de urgência. A vítima recebe um aviso de que precisa resolver imediatamente algum problema na conta e é direcionada para uma página falsa que imita a rede social. Ao informar usuário e senha nesse ambiente, a pessoa entrega os dados ao criminoso. Em alguns casos, o golpe continua com uma tentativa de obter também o código de autenticação enviado por SMS, e-mail ou aplicativo autenticador.
Depois de conseguir acesso, o criminoso pode mudar a senha, o e-mail e o telefone de recuperação e desconectar os dispositivos utilizados pelo verdadeiro proprietário. A partir daí, a vítima pode perder completamente o controle do perfil. O criminoso ainda pode usar a conta para enviar mensagens em nome da vítima, aplicar golpes contra amigos e seguidores, ameaçar publicar conteúdos ou explorar conversas, fotografias, vídeos e outras informações privadas.
Em situações envolvendo imagens ou vídeos íntimos, o caso pode evoluir para sextorsão, quando esse material é utilizado para ameaçar ou constranger a vítima e exigir dinheiro, novas imagens ou outras vantagens.
O FBI alertou em agosto de 2026 para casos em que criminosos obtêm acesso a contas e ambientes digitais de adultos e menores para procurar material íntimo que possa ser utilizado posteriormente em assédio, perseguição e sextorsão. Em fevereiro, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos também divulgou o caso de um homem que se declarou culpado após enganar centenas de adolescentes e jovens para obter acesso a contas de redes sociais, acessar material privado e ameaçar vítimas para extorqui-las.
Cinco cuidados para reduzir o risco
- 1. Desconfie de mensagens urgentes
Avisos como “sua conta será excluída hoje”, “confirme imediatamente” ou “clique para evitar o bloqueio” devem ser tratados com desconfiança. A pressão para agir rapidamente é um dos recursos utilizados em golpes de engenharia social.
- 2. Nunca entregue códigos de autenticação
Senhas e códigos recebidos por SMS, WhatsApp, e-mail ou aplicativo autenticador não devem ser compartilhados. A recomendação vale mesmo quando a pessoa se apresenta como funcionária da plataforma, de um banco ou de outra empresa.
- 3. Não acesse links para resolver supostos problemas
Se uma mensagem disser que a conta foi denunciada ou apresenta algum problema, o mais seguro é não utilizar o link recebido. O usuário deve entrar diretamente no aplicativo ou site oficial da plataforma e verificar se existe alguma notificação.
- 4. Use senha exclusiva e autenticação em dois fatores
A senha da rede social não deve ser repetida no e-mail ou em outros serviços. A autenticação em dois fatores acrescenta uma camadade proteção
. Também é importante verificar periodicamente quais dispositivos estão conectados à conta e remover aqueles que forem desconhecidos.
- 5. Pais devem manter um canal de confiança
Adolescentes precisam saber que podem procurar os responsáveis quando algo estranho acontecer na internet, mesmo que tenham cometido algum erro. O medo de uma bronca pode fazer com que a vítima tente negociar sozinha com o criminoso e prolongue o problema.
O que fazer se a conta for invadida?
A primeira orientação é não pagar o resgate. O pagamento não garante que o criminoso devolverá o perfil e pode abrir espaço para novas exigências. A vítima deve preservar prints das conversas e ameaças, guardar o nome de usuário, links, telefones, e-mails e outros dados utilizados pelo criminoso e registrar informações sobre pagamentos ou tentativas de pagamento, incluindo eventual chave Pix.
Também é importante utilizar imediatamente os mecanismos oficiais de recuperação da plataforma, trocar a senha do e-mail vinculado à conta, alterar senhas semelhantes usadas em outros serviços e verificar os dispositivos e sessões conectadas. O caso também deve ser registrado em boletim de ocorrência.
Se houver ameaça de divulgação de imagens íntimas envolvendo criança ou adolescente, a situação deve ser comunicada imediatamente aos responsáveis e às autoridades competentes. A vítima não deve ceder às exigências nem continuar negociando sozinha com o criminoso.
Golpe começa antes do clique
Segundo Afonso Morais, advogado digital e empresarial, especialista em fraudes digitais e recuperação de ativos financeiros, fundador do escritório Pardi e Morais Consultores Jurídicos e criador e host do Falando de Fraudes Podcast, o criminoso muitas vezes não precisa invadir tecnicamente um sistema para assumir uma conta.
“O ponto mais importante é entender que o criminoso não precisa quebrar um sistema para assumir uma conta. Muitas vezes, ele convence a própria vítima a entregar a chave de acesso”. Para o especialista, mensagens inesperadas que provocam medo ou urgência devem ser tratadas como possíveis golpes antes de qualquer clique.
Entre adolescentes, medidas como senhas exclusivas, autenticação em dois fatores e cuidado com links ajudam a reduzir o risco. Mas, além da tecnologia, a orientação para procurar ajuda rapidamente diante de qualquer comportamento estranho na conta também é parte importante da proteção.
Correio
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