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O investidor brasileiro quase sempre foi mais pessimista com o Brasil do que o estrangeiro. O gringo olha preços, compara oportunidades e, de tempos em tempos, redescobre o país. O brasileiro conhece o histórico, carrega as frustrações e costuma antecipar os riscos. Essa diferença reapareceu com força nesta quinta-feira (17).

Um debate entre investidores no terminal da Bloomberg, cujo resumo, feito por alguns dos maiores bancos que atuam no Brasil, foi obtido pelo blog, mostrou uma divisão clara na avaliação sobre o reajuste do Bolsa Família anunciado pelo governo nesta quinta-feira.

Politicamente, a medida revela desespero da campanha de Lula com a perda de pontos nas pesquisas e a ameaça da crise do STF pendendo sobre o Planalto. Sem contar o fato de ser anunciada a 15 dias do primeiro turno, numa inovação que nenhum outro candidato à reeleição teve a ousadia de fazer.

Ainda mais considerando uma medida que poderia ter sido adotada a qualquer tempo neste terceiro mandato. A decisão de fazê-lo agora dá a dimensão da urgência eleitoral.

Neste debate online, os estrangeiros relativizaram o aumento do programa, considerando-o uma medida eleitoral típica de fim de ciclo, comparável a movimentos de outros governos, inclusive ao Auxílio Brasil de R$ 600 aprovado no governo Bolsonaro quatro meses antes da eleição de 2022.

Entre os brasileiros, segundo resumo repassado à CNN, a preocupação não é exatamente com o impacto fiscal isolado da medida, mas com o que ela pode sinalizar.

O custo é estimado em R$ 5,7 bi em 2026 e R$ 22 bi em 2027. Seria apenas mais uma medida eleitoreira ou é sinal de que a probabilidade do chamado “Lula 4 Light” é bem menor?

Parte do mercado até considera a possibilidade de um Lula moderado num eventual quarto mandato, mais por força da realidade do que por escolha. Mas os sinais recentes do próprio presidente revelam que a resistência a encarar a situação continua enorme.

Nesta semana, Lula voltou a questionar a independência do Banco Central, reclamando que perdeu poder de intervenção na economia.

No jantar com empresários no Alvorada, o presidente disse que em seu governo “não tem essa de ficar discutindo ajuste fiscal” e voltou a criticar o que considera uma visão excessivamente fiscalista da economia.

É essa ambiguidade que importa. Mercados não precificam apenas a conta de uma medida; precificam cenários. Se diminui a probabilidade de um Lula 4 mais contido e aumenta a de um governo mais intervencionista e expansionista, o prêmio de risco tende a subir.

Talvez exista também algum cansaço nessa diferença de percepção. Para o estrangeiro, Lula é um presidente de um país emergente dentro de um portfólio global. Para o brasileiro, é um presidente de 80 anos de idade tentando chegar ao quarto mandato.

CNN