Pouco efeito. Homem armado faz vigilância numa área de mata entre os complexos da Penha e do Alemão dias após a morte de 122 pessoas

Paula (nome fictício), de 56 anos, nasceu e passou toda a vida na Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio. Nas primeiras horas da manhã de 28 de outubro do ano passado, ela ouviu os primeiros tiros daquela que entraria para a história como a operação policial mais letal do Brasil. Ao longo do dia, os confrontos se intensificaram, sem que traficantes ou forças de segurança dessem sinais de recuo. A cada atualização, aumentava o número de mortos, até chegar a 122: 117 suspeitos e cinco policiais.

Um ano depois, a promessa de tornar o conjunto de favelas mais seguro não se concretizou. Chefes do Comando Vermelho (CV) continuam a controlar as comunidades e, segundo as investigações, a ordenar dali invasões a outras áreas do estado. Enquanto isso, os moradores seguem submetidos à extorsão e ao monopólio de bens e serviços imposto pela facção. Para Paula, passado o impacto da megaoperação, a realidade permanece a mesma.

— Falaram que a operação deixaria o complexo mais seguro, o que não aconteceu. Ainda vemos adolescentes armados e temos que pagar pela internet que eles querem que a gente tenha. A polícia chegou dizendo que ia tomar tudo de volta, mas, no fim das contas, foi embora — lamenta ela.

Os sinais de que a ação não teria impacto duradouro no combate à violência apareceram em poucos dias. Menos de duas semanas depois da imagem de corpos enfileirados numa praça correr o mundo, traficantes já ocupavam uma base estratégica de observação no maciço que separa os complexos do Alemão e da Penha.

Para Roberto Uchôa, conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, operações como a de outubro do ano passado não provocam prejuízos significativos à estrutura criminosa:

— Tivemos uma mobilização grandiosa, mas o saldo concreto foi nulo. As mais de cem mortes e as dezenas de fuzis apreendidos viraram estatística descartável: homens e armas foram repostos com agilidade pelo CV. Na ponta, para a população que vive sob fogo cruzado, nada mudou: a facção segue controlando o território e operando com a sua estrutura de poder intacta.

‘Matou e foi embora’

Nos documentos oficiais, a megaoperação previa conter a expansão do CV, forçar o recuo da facção, recuperar territórios sob domínio armado, capturar chefes do tráfico e restabelecer a presença do Estado na região.

Tauá Brito, moradora do Alemão que perdeu o filho Wellington Brito, de 20 anos, na operação, diz que ainda não vê mudanças na realidade das comunidades. Para ela, o Estado entrou nas favelas, “matou e foi embora”, sem oferecer alternativas aos jovens ou fortalecer os projetos sociais que já existem nos territórios:

— O que muda é a quantidade de famílias que choram a perda dos seus filhos. É a única mudança que tem.

A distância entre a capacidade de realizar uma grande ofensiva policial e a de promover mudanças duradouras em comunidades também aparece na avaliação de policiais militares que participaram da ação. A estratégia, avaliam os agentes, não deveria ser apenas cumprir mandados de prisão e apreender armas, mas incluir ações para garantir a continuidade da presença do Estado.

— A operação serviu para mostrar que, se o Estado quiser, ele entra. Não foi para retomar território nem enfraquecer o CV; foi para mostrar a força do Estado. Mas não pensaram no dia seguinte — disse um integrante de um batalhão especial da PM.

A megaoperação foi planejada a partir de uma investigação da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) contra lideranças do CV. Apesar da preparação de cerca de 60 dias e da mobilização de 2,5 mil agentes, o resultado ficou aquém da meta. Dos cem mandados de prisão expedidos pela 42ª Vara Criminal da Capital e por 49 tribunais de fora do Rio, apenas cinco alvos foram capturados, e um deles já havia sido preso antes da investida. Dos 89 adultos detidos, a maioria não estava entre os procurados: 72 foram presos em flagrante, sete por mandados referentes a outros crimes e dez tanto em flagrante quanto por mandados. Dez adolescentes foram apreendidos.

‘Expansão contínua’

Entre os alvos prioritários da operação estavam Edgar Alves de Andrade, o Doca; Carlos Costa Neves, o Gardenal; Washington César Braga da Silva, o Grandão; e Juan Breno Malta Ramos, o BMW. Apontados como chefes do Comando Vermelho, eles acumulam centenas de anotações criminais e são associados às violentas disputas para expandir seus territórios, sobretudo na Zona Sudoeste do Rio. Nenhum deles foi preso na ação. Os quatro seguem foragidos e, segundo as investigações, continuam a dar ordens de dentro de bunkers fortemente protegidos no Alemão e na Penha. O mais perto que a polícia chegou da meta foi com a captura de Thiago do Nascimento Mendes, o Belão, apontado como braço direito de Doca e chefe do tráfico no Morro do Quitungo, em Brás de Pina.

— A gente não teve notícia de perdas territoriais significativas do Comando Vermelho no último ano. A facção segue na mesma rota de expansão contínua na Região Metropolitana do Rio e também no cenário nacional. Todas as lideranças procuradas deixaram o território na véspera da operação, segundo relatos de moradores. Foi por isso que os mandados de prisão não foram cumpridos. Quem ficou nas comunidades foi quem ocupa os degraus mais baixos da hierarquia do tráfico — analisou a coordenadora do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni) da Universidade Federal Fluminense (UFF), Carolina Grillo.

São esses chefes em liberdade que coordenam a conquista de novos territórios, financiada com recursos obtidos por meio da extorsão de moradores e comerciantes, além da venda de drogas. Um dos principais focos dessa expansão é a região de Jacarepaguá, na Zona Sudoeste do Rio, onde a facção busca consolidar seu domínio em áreas controladas por milicianos. Há ainda confrontos com o Terceiro Comando Puro (TCP) nas regiões das Vargens e do Terreirão, na Zona Sudoeste, e nas comunidades de Tintas e Dourados, em Cordovil, na Zona Norte. Em Campo Grande, comunidades sob controle de grupos paramilitares também vêm sendo alvo de ofensivas do CV. Segundo a polícia, as invasões têm como objetivo ampliar a rentabilidade da facção, que tem investido no controle de serviços como uma de suas principais fontes de renda.

— O tráfico de drogas hoje responde por uma fatia cada vez menor da receita das facções. A principal atividade do grupo tornou-se o controle armado de territórios e, a partir dele, a regulação e a extorsão de mercados inteiros, legais e ilegais, desde o botijão de gás e a internet clandestina até o transporte local — explica Uchôa.

Registro das mortes

Embora tenha sido a operação mais letal no país, nenhum dos 10.202 vídeos gravados pelas câmeras corporais dos policiais e analisados até agora registra o momento das mortes. A ausência de imagens foi apontada em relatório da Defensoria Pública do Estado do Rio, do Projeto Mirante e do Geni, que também reuniu indícios de violência policial. A lacuna dificulta o esclarecimento das circunstâncias das mortes, sobretudo na Serra da Misericórdia, que divide os complexos da Penha e do Alemão e concentrou o maior número de vítimas. Segundo a Polícia Militar, foi nessa região que os agentes montaram o chamado “muro do Bope”, estratégia que, de acordo com a corporação, tinha como objetivo “bloquear” a passagem dos traficantes e “empurrar” os criminosos para uma área “sem moradias”.

As circunstâncias das mortes e a atuação dos policiais continuam sob análise, enquanto medidas determinadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito da ADPF 635, para reduzir a letalidade policial ainda enfrentam desafios de implementação. Por determinação da Corte, o governo estadual apresentou, em dezembro de 2025, o Plano Estratégico de Reocupação Territorial, que ainda não começou a sair do papel. 

Fonte:Extra o Globo