Passageiro também

Gritos de socorro, um piloto esfaqueado e passageiros que acreditavam estar prestes a morrer marcaram o voo da Flydubai entre Dubai e Tel Aviv nesta quarta-feira (30). Os relatos de quem estava a bordo ajudam a reconstituir os momentos de pânico e a reação de passageiros e tripulantes para conter o copiloto, acusado de tentar derrubar a aeronave, antes do pouso de emergência na Arábia Saudita.

O medo se espalhou quando o avião começou a perder altitude. Dados do Flightradar24 indicam uma descida de cerca de 14 mil pés, quase 5 mil metros, em menos de 30 segundos. Dentro da aeronave, passageiros ouviram pedidos de ajuda e perceberam que havia uma emergência na cabine de comando.

Miriam Ohayon contou à televisão israelense que sentiu o avião perder o controle e começou a rezar. Naquele momento, pensou na mãe, que a aguardava em Israel e já havia perdido um filho. O irmão de Miriam, o soldado Evyatar Ohayon-Abuksis, morreu no ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023. 

Após o pouso, Miriam telefonou para a mãe, Yasmin Abu Kasis, e descreveu os gritos que havia ouvido. Yasmin relatou à Reuters que, segundo a filha, o próprio piloto pedia socorro.

“Ela me ligou [após aterrissar] e disse que eles ouviram vozes, alguém pediu ajuda. Era o piloto. Ele estava gritando: ‘Ajuda, ajuda, ajuda!’. O avião começou a perder o controle, então todas as pessoas começaram a gritar e acharam que iriam morrer”, afirmou.

Enquanto parte dos passageiros tentava entender o que estava acontecendo, outros correram para a frente da aeronave. Tzvika Manes, um dos homens que participaram da intervenção, contou ao jornal israelense Calcalist que sua mulher estava perto da cabine porque a filha do casal havia ido ao banheiro.

Ao ouvir gritos, ela chamou um piloto de apoio que estava sentado nas proximidades. Ele foi verificar a situação e pediu ajuda. Segundo Manes, ele e outros dois homens entraram na cabine e conseguiram imobilizar o agressor. Um médico que viajava no avião prestou atendimento ao comandante e fez curativos ainda durante o voo.  Em outro registro feito a bordo, um passageiro aparece com sangue escorrendo de um ferimento na cabeça e pede ajuda enquanto anuncia que o agressor havia sido contido.

A passageira Meital descreveu uma reação semelhante ao canal israelense Channel 12. Segundo ela, o marido correu para a cabine depois que alguém alertou sobre um esfaqueamento e se juntou a outros passageiros para conter o responsável. Ao falar sobre o episódio, ela disse que ainda estava sob forte estresse e tinha dificuldade para dar o depoimento. 

Mesmo depois da intervenção, a lembrança da descida permanecia entre os passageiros. Um homem identificado como Daniel contou à imprensa israelense que o avião mergulhava e girava, em uma sequência que lhe pareceu durar uma eternidade. Ele também relatou ter visto sangue no chão quando o piloto ferido foi retirado da cabine.

Segundo Daniel, dois pilotos que estavam a bordo, fora de serviço, assumiram o comando após o agressor ser contido. A aeronave seguiu para Tabuk, no noroeste da Arábia Saudita, onde pousou em segurança. O aeroporto informou que o piloto e o copiloto foram hospitalizados. 

No aeroporto Ben-Gurion, perto de Tel Aviv, familiares acompanhavam as notícias e recebiam ligações de quem havia sobrevivido à emergência. Miriam falou com jornalistas pelo viva-voz do telefone da mãe. Segundo o Guardian, ela retornava a Israel para uma cerimônia em memória do irmão.

Após o pouso, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmou que um dos pilotos esfaqueou o outro e aparentemente tentou provocar a queda do avião. Segundo ele, o suspeito foi preso e estava sendo interrogado pelas autoridades sauditas. O ministro de Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, classificou o episódio como uma tentativa de ataque terrorista. 

A Flydubai informou que todos os passageiros estavam seguros. Para os ocupantes do voo, porém, o fim da emergência não apagou de imediato o medo vivido no ar. Nos depoimentos, a sensação de que a aeronave cairia aparece ao lado da lembrança de quem deixou o próprio assento para ajudar a recuperar o controle. 

Correio