Ação da PF sobre 'propina' a Paes foi abortada após delegado descobrir fonte da informação: 'Vindo do Maurício Demétrio, não pode ser boa coisa'

 Delegado Maurício Demétrio é acusado de tentar armar duas operações falsas, uma delas contra Eduardo Paes Delegado Maurício Demétrio é acusado de tentar armar duas operações falsas, uma delas contra Eduardo Paes Foto: Fabiano Rocha / Fabiano Rocha



RIO — Conversas apagadas e recuperadas por peritos do Ministério Público do Estado em um dos celulares do delegado de Polícia Civil Maurício Demétrio Afonso Alves mostram que ele mandou dois agentes da instituição seguirem e monitorarem o então candidato à Prefeitura do Rio Eduardo Paes (PSD). A vigilância aconteceu no dia 24 de novembro de 2020. O objetivo era tentar forjar um motivo para a prisão do então postulante ao governo municipal. Naquela eleição, o atual prefeito concorria com Marcelo Crivella (Republicanos), que tentava a reeleição. No dia da tentativa da operação forjada, Paes fez uma agenda na Clínica da Família Estácio de Sá, no Rio Comprido, Zona Norte do Rio, e em Botafogo, na Zona Sul do Rio. A ação policial só não aconteceu porque o delegado federal Victor César Carvalho dos Santos descobriu que era Demétrio que havia feito chegar até ele a informação sobre "entrega de dinheiro".

"Vindo do Maurício Demétrio, não pode ser boa coisa", disse o agente ao MPRJ.

Os desdobramentos das investigações sobre a quadrilha chefiada pelo ex-titular da Delegacia de Repressão aos Crimes Contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM), preso em junho, apontam que em 23 de novembro de 2020, às vésperas do segundo turno, Demétrio, por intermédio do advogado Thalles Wildhagen Camargo, fez chegar ao conhecimento de Carvalho dos Santos a notícia de que, no dia seguinte, 24 de novembro, um portador entregaria a Paes dinheiro de origem desconhecida. Nas mensagens, Demétrio mandou uma foto do suposto envelope que seria entregue, com notas de R$ 50 e R$ 100. Os promotores descobriram que foi o próprio delegado que tirou a foto do montante usando um dos seus 12 celulares.

Em depoimento à promotoria, Carvalho dos Santos diz que desistiu da operação ao saber quem era a fonte. Ao MPRJ, o delegado federal contou: "O Thales me mandou uma mensagem falando: 'Pô, cara, tenho um negócio, uma entrega de dinheiro para o Eduardo Paes. Te interessa aí?' (…) Falei, ‘Beleza, oh, Thales, vamos ver, me passa mais informações', diz trecho do depoimento, que segue:

'Aí ele começou dizendo que era uma picape Volkswagen… Amarok. Uma Amarok branca, para fazer uma entrega de dinheiro. Aí seria no Centro, depois foi para o Estácio, acabou indo para o Méier, no Lins e ficou essa coisa de ‘vai agora? Vai depois?’ e (ele) acabou não dando o local exato", contou Carvalho dos Santos à promotoria.

De acordo com os promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), "no dia da suposta entrega, Maurício Demétrio chegou a mobilizar os policiais civis Vinícius Cabral de Oliveira (denunciado na fase I da Operação Carta de Corso) e Arménio Luiz Salatiel Braga para fazerem a vigilância de Eduardo Paes e sua comitiva, de modo a obter imagens do veículo utilizado por ele naquela data", destaca trecho da denúncia que embasou a nova prisão contra o delegado na segunda fase da Operação Carta de Corso.


Em áudio enviado ao advogado Thalles Wildhagen Camargo, Demétrio disse que os dois policiais estavam "seguindo ele", em referência a Paes. Em seguida, o delegado envia a suposta foto do dinheiro que o então candidato receberia.

Segundo o relatório de análise dos dados extraídos dos telefones apreendidos de Demétrio, Wildhagen Camargo "não tinha ciência de que a 'operação' estava sendo forjada, e limitou-se a repassar ao delegado federal, seu primo, as informações prestadas por Maurício”.

Questionado se ele sabia quem havia repassado a informação para Thalles, o delegado disse: "No início eu nem sabia que era o Demétrio. O Thalles não falou que era ele. (…) Aí eu comecei a pressionar. Aí ele: 'Pô, é o Demétrio'. Ai, pensei: 'Pô, tá de sacanagem? Alguma sacanagem tem aí… não sei qual é o interesse dele. Mas, vindo de Maurício Demétrio não pode ser coisa boa (…) O histórico dele é esse. Fazendo mal para alguém, sempre nesse sentido. Agora, fazendo mal com que objetivo a gente nunca sabe", disse o delegado ao MPRJ.

Na tarde desta terça-feira, pela primeira vez, Eduardo Paes (PSD) comentou a tentativa do delegado em forjar uma prisão contra o então candidato na eleição municipal no ano passado. O político afirmou que acredita que o policial “estava a serviço de alguém" e que "ele utilizava de seu poder para fins políticos”. Eduardo Paes voltou a chamar Demétrio de "delinquente e vagabundo" e destacou que ele "não estava agindo sozinho".

– Eu acho que ele estava a serviço de alguém. Coincidentemente, a mulher dele estava empregada na Prefeitura do Rio de Janeiro. Isso é inaceitável. A minha vida é pública e todo mundo sabe aonde eu vou. O que me preocupa é o Estado brasileiro sendo utilizado para esses fins. Pessoas do estado, policiais, juízes, o Ministério Público, seja lá quem for, prefeitos, governadores, que utilizem de algo que a República não lhes deu, pessoalmente, para fins pessoais e políticos. Eu estou muito interessado em saber a mando de quem ele estava agindo. Era importante ele dizer. Porque não me parece ser uma movimentação só dele – declarou Paes ao GLOBO.

A defesa de Demétrio disse que o delegado preso recebera uma denúncia "de que ele (Paes) receberia um valor (de propina) e que apenas repassou a denúncia à Polícia Federal".

– Ele me disse que recebeu uma denúncia de que ele (Paes) receberia um valor. O Demétrio só repassou a denúncia para um delegado da Polícia Federal para que ele fizesse o que era cabível – disse o advogado Raphael Mattos que defende o policial civil

Extra o Globo


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