O vereador do Rio de Janeiro Salvino Oliveira (PSD), 28, foi preso nesta quarta-feira (11) durante a Operação Contenção Red Legacy, deflagrada pela Polícia Civil do estado para investigar lavagem de dinheiro do Comando Vermelho. Ex-secretário do prefeito Eduardo Paes (PSD), ele teria mantido conversa diretamente com Edgar Alves, o Doca, líder da facção no estado, sobre questões eleitorais, de acordo com a investigação.

Ao chegar à Cidade da Polícia, Oliveira negou as acusações. "Entrei na política para mudar a vida das pessoas e estou sendo vítima de uma briga política que não é minha", disse. Indagado se tem ligação com Doca, ele respondeu: "Absolutamente, não". A polícia não informou se Oliveira tem advogado constituído, o que impossibilitou a tentativa de contato da reportagem com a defesa nesta manhã.

A reportagem entrou em contato com a Câmara do Rio, que não se posicionou sobre o caso até a publicação deste texto. O prefeito também não se manifestou.

A investigação da Polícia Civil visa a desarticular a rede do CV, "uma organização criminosa com características de cartel e atuação interestadual altamente estruturada".

A operação da polícia objetiva cumprir 13 mandados de prisão. Até a última atualização nesta manhã, seis pessoas haviam sido presas –outras quatro já estavam presas.

Entre os detidos estão também cinco policiais militares. A operação ainda tem como alvo pessoas ligadas ao traficante Marcinho VP, apontado como líder máximo do Comando Vermelho. Sua defesa sempre negou as acusações.

Segundo as investigações, o vereador teria negociado com Doca para realizar campanha na comunidade da Gardênia Azul, na zona oeste do Rio, área dominada pela facção após expulsão da milícia. Em troca, de acordo com a Polícia Civil, o parlamentar teria articulado benefícios ao grupo criminoso, apresentados publicamente como ações voltadas à população local.

Um dos exemplos citados pela investigação envolve a instalação recente de quiosques na região. A polícia afirma que parte dos beneficiários teria sido escolhida diretamente por integrantes da facção, sem um processo público transparente.

O vereador também declarou à imprensa não ter envolvimento com a instalação de quiosques na Gardênia Azul e disse não conhecer o sobrinho de Marcinho VP.

Salvino Oliveira nasceu na Cidade de Deus e tem origem humilde. Na infância, vendeu balas e água em ônibus para ajudar a família e também trabalhou como garçom e ajudante de pedreiro. Aos 7 anos, entrou no Colégio Pedro II por sorteio e, anos depois, formou-se em Gestão Pública pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Em 2021, aos 22 anos, foi nomeado secretário municipal especial da Juventude na gestão do prefeito Eduardo Paes. Em 2024, foi eleito vereador pelo PSD com mais de 27 mil votos e está em seu primeiro mandato. Entre seus projetos mais conhecidos está a proposta de regulamentação do aluguel por temporada na cidade.

Há dois dias, Paes criticou a ligação de integrantes do governo estadual com o crime organizado. "Eu já até perdi a conta de quantos dirigentes do Estado foram presos por ligação com o crime organizado", disse.

"Já teve secretário negociando com traficante em presídio federal, já teve secretário entregando operação contra o crime, já teve secretário preso por conexões com bicheiros...e por aí vai! Isso sem falar dos desvios padrão RioPrevidência", acrescentou.

Familiares de Marcinho VP procurados

A Polícia Civil considera foragida Márcia Gama dos Santos Nepomuceno, esposa de Marcinho VP e mãe do rapper Oruam. Segundo os investigadores, ela atuaria na intermediação de interesses da facção fora do sistema prisional, participando da circulação de informações e de articulações com operadores da organização.

"Essa ação demonstrou de maneira muito clara toda a questão do Comando Vermelho da articulação nacional da facção. Tem conversas entre o Comando Vermelho e PCC. A investigação também demonstrou que a mulher de Marcinho VP era a grande articuladora dos negócios da facção", disse o delegado Henrique Damasceno, diretor do Departamento-Geral de Combate à Corrupção, ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro.

Procurado, o advogado de Márcia Gama, Flávio Fernandes, afirmou que não teve acesso ainda ao processo. "Vamos esperar a operação ser encerrada e ter acesso aos autos para entender as acusações. Se entender que o pedido é ilegal, vamos combater esse pedido", disse.

Ainda segundo o defensor, em 2010, Márcia foi presa por acusações de ligação com a facção e foi absolvida.

Outro alvo é Landerson Lucas dos Santos, sobrinho de VP, apontado como elo entre lideranças do grupo, integrantes que atuam em comunidades dominadas pelo tráfico e pessoas envolvidas em atividades econômicas exploradas pela facção, como serviços e imóveis.

A polícia não informou se Landerson tem advogado constituído, e a reportagem não conseguiu descobrir quem é responsável pela defesa dele