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| Picape do Corpo de Bombeiros é usada em reforma de casa de ex-comandante Crédito: Divulgação |
Uma
caminhonete que deveria ser usada para fins da corporação foi vista em
uma obra — e, segundo vizinhos, teria sido utilizada em um endereço
particular. Em Vilas do Atlântico, na Região Metropolitana de Salvador,
uma picape do Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CBM-BA) foi flagrada
em uma reforma na casa de praia do ex-comandante da corporação, o
coronel Adson Marchesini.
A
propriedade está localizada na Rua do Sossego, lotes 19 e 20, na 3ª
Etapa de Vilas do Atlântico, e a escritura está em nome de Adla Angelini
Almeida, apontada como irmã de consideração do ex-comandante. Porém, o
imóvel pertence ao ex-chefe do Corpo de Bombeiros, segundo informação
confirmada por ele. Vizinhos relatam que o investimento foi alto. “Ele
vinha acompanhar a obra. Quase demoliu a casa inteira”, diz uma moradora
que pediu anonimato.
No
dia 25 de março, Marchesini anunciou sua pré-candidatura a deputado
federal nas eleições de outubro. Ele foi exonerado do cargo em abril do
ano passado, quando recebia salário de R$ 71 mil.
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| Picape do Corpo de Bombeiros é usada na obra da casa de ex-comandante da corporação por Arisson Marinho/CORREIO |
Flagrante
O
imóvel passou por uma ampla reforma, iniciada há mais de um ano e
finalizada há cerca de quatro meses. Durante o início da construção, uma
picape L200 Triton, placa RDQ 3A89, ano 2022, teria sido usada como
carreto, ou seja, para transportar materiais de construção. Em uma foto
obtida com exclusividade pelo CORREIO, um homem aparece retirando blocos
de cimento do veículo, registrado em nome do Corpo de Bombeiros Militar
da Bahia. Em outro flagrante, um trabalhador surge na carroceria da
picape. Na ocasião, Marchesini ainda estava à frente do CBM-BA.
Na
mesma época, um Toyota Corolla preto, placa SKD 9C73, ano 2024, foi
fotografado em frente à casa durante a reforma. O veículo pertence a uma
empresa que presta serviço à Secretaria de Segurança Pública da Bahia
(SSP-BA), responsável por alugar carros para comandantes e coronéis.
Situações
como essa, se comprovadas, podem ser enquadradas como improbidade
administrativa — ato ilícito praticado por agentes públicos ou
particulares que causa prejuízo ao erário, gera enriquecimento ilícito
ou viola princípios da Administração Pública —, conforme previsto nas
Leis nº 8.429/1992 e nº 14.230/2021. Usar o cargo para beneficiar amigos
ou familiares, receber vantagem indevida, fraudar licitação e utilizar
veículo oficial para fins pessoais são alguns exemplos.
Os
denunciantes relatam ainda a presença de militares na execução da obra.
“Alguns chegaram aqui fardados e, dias depois, estavam trabalhando. E a
gente, que é peão, reconhece o outro — e eles não tinham jeito de quem é
da obra”, afirma um prestador de serviço.
Mulheres, bebidas e barulho
Inicialmente,
a vizinhança acreditava que o imóvel seria mais um a contribuir para a
tranquilidade da região. Mas a expectativa não se confirmou. “Todo mundo
achava que ele ia morar aí, porque praticamente demoliu a casa inteira.
Em novembro, chegou a colocar placa de ‘aluga-se’ para temporada e
aniversários — inclusive houve festa infantil. Depois começou isso aí,
neste mês”, relata uma vizinha.
Segundo
moradores, o imóvel passou a sediar festas de terça a domingo,
iniciadas à noite e que se estendem pela madrugada. “É um entra e sai de
pessoas e carros diferentes. Com presença frequente de mulheres jovens e
grande circulação de visitantes, além do som nas alturas. Ninguém
dorme. Na outra semana, durante o dia, a casa estava cheia, com pessoas
bebendo, fumando e tomando sol na piscina”, conta uma moradora.
Em
um perfil no Instagram, criado em janeiro deste ano, a casa é anunciada
com cinco quartos, cozinha, piscina ampla, churrasqueira, área gourmet e
garagem, disponível para locação no Carnaval. “Mas acho que isso é só
para não chamar atenção. Outro dia, um homem mais velho, bem vestido, em
um carro de luxo, perguntou a um caseiro daqui onde ficava o que ele
chamou de ‘novo prostíbulo de Vilas’. Ele ficou sem reação”, revela
outra vizinha.
O
CORREIO também recebeu fotos e vídeos de jovens que aparecem em outra
página da rede social, supostamente gravados dentro da casa de praia do
ex-comandante do CBM-BA. Nas imagens, elas usam roupas transparentes e
fazem danças sensuais, em conteúdo interpretado por moradores como
sugestivo de eventos privados. Em alguns registros, espaços como a
varanda e a área interna apresentam características semelhantes às do
imóvel. Em uma das fotos, a piscina aparece como cenário para as
mulheres e apresenta características compatíveis à instalada na casa de
praia, incluindo detalhes do muro e a arquitetura de uma das residências
da vizinhança.
Agressão
Há
cerca de 15 dias, há relatos de uma suposta agressão que teria ocorrido
no imóvel. “Minha esposa começou a se queixar do barulho. A moça
gritava por socorro, dizendo que estava apanhando, por volta das 5h de
um sábado. Alguns moradores foram ajudar, mas ela acabou xingando todos.
Ninguém dormiu mais. No mesmo dia, a festa recomeçou às 7h30”, relata
um vizinho.
Segundo
ele, a jovem teria sido agredida por um empresário. Moradores afirmam
que a polícia já foi acionada diversas vezes, tanto durante o dia quanto
à noite, por causa do barulho. “Muitos aqui têm medo da influência
dele. Outros, como a minha patroa, já ligaram várias vezes, mas a
polícia não aparece. Aqui está pior que o meu bairro. Lá, quando tem
paredão, a polícia chega e acaba. Aqui, não”, diz uma diarista, moradora
de Portão.
Na
quarta-feira (1º) e quinta-feira (2), a reportagem procurou o Corpo de
Bombeiros, a Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) e o
Ministério Público do Estado (MP-BA) para saber se os órgãos têm
conhecimento das denúncias e quais medidas serão adotadas.
Em
nota, o CBM-BA informou que “a demanda foi encaminhada ao setor
responsável”. Já os demais órgãos não responderam. O espaço permanece
aberto para posicionamentos. A reportagem também procurou a Prefeitura
de Lauro de Freitas para saber se há denúncias relacionadas à poluição
sonora e outras supostas irregularidades, porém não houve resposta.
Ex-coronel se pronuncia
Ao
ser questionado sobre o uso de uma caminhonete do Corpo de Bombeiros na
reforma do imóvel em Vilas, o ex-comandante da corporação, coronel
Adson Marchesini, declarou. “Tem carro que me serve. Fui ver a obra
várias vezes. É minha (picape vermelha), que eu usava. Meu motorista me
levava para ver a obra. Posso ter levado alguma coisa quando fui. É
normal, mas carregar material, não, nunca, esqueça”, disse.
Sobre
a imagem obtida pela reportagem, onde um homem aparece retirando blocos
de cimento de uma caminhonete com as mesmas características do veículo
citado, registrado em nome do CBM-BA, Marchesini respondeu. “Eu não
estou gostando do rumo dessa prosa. Sou respeitado e me respeite. Eu fui
comandante, tinha um carro a minha disposição que vinha comigo e, às
vezes, levava uma caixa ou outra — isso é coisa minha. Minha casa foi
feita por uma empresa, foi entregue pronta, meus móveis foram feitos por
uma empresa. Não fiz mudança, não fiz nada. Estou tranquilo”, afirmou,
em entrevista concedida no último dia 30 por telefone.
Marchesini
foi questionado sobre relatos de moradores a respeito da movimentação
de pessoas e veículos no imóvel, onde, segundo vizinhos, ocorreriam
festas frequentes com grande circulação de convidados, incluindo
mulheres e consumo de bebidas. “Eu não sei. Eu aluguei a casa para uma
senhora. O aluguel termina na próxima segunda (hoje). É locação por
temporada. Começou há 10 dias”, respondeu, para depois completar. “Estou
sabendo disso agora, por você. Se estiver usando a casa para algo
ilícito, vou denunciar e retomar o imóvel”.
Ele
afirmou que mora na Cidade Baixa e adquiriu o imóvel para a mãe, mas
ela não quis utilizá-lo. Por isso, optou pela locação por temporada, com
o objetivo de recuperar o investimento, e declarou não ter recebido
reclamações de vizinhos.
Fonte: Correio 24 Horas


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