Na noite do domingo do segundo turno das eleições municipais de 2024, depois de votar em Belo Horizonte, o então banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, contou à namorada, Martha Graeff, que estava em casa, em reunião, com um ministro e com Duda, com quem, explicou, tinha "negócios de mineração".
As trocas de mensagens foram extraídas do celular de Vorcaro pela Polícia Federal e são um ponto de partida para entender uma teia de conexões do dono do Master ainda pouco falada no setor de mineração, no qual o ex-banqueiro investiu.
O Duda citado por Vorcaro é Eduardo Wanderley, amigo do ex-banqueiro e cuja família tem investimentos em diferentes setores. Ele é sócio da 3D Mineração, por exemplo, que foi financiada pelo Master para disputar leilão organizado pela ANM (Agência Nacional de Mineração). Vorcaro e Duda tinham o costume de se visitar e de frequentar os mesmos ambientes.
O jornal Folha de São Paulo cruzou dados públicos dos ministros do Executivo, como reportagens, agendas públicas e emissão de passagens, e também procurou as assessorias de imprensa para verificar a localização de todos os ministros homens naquele dia.
Só não conseguiu confirmar onde estavam Renan Filho, cuja base política é Alagoas; Celso Sabino, do Pará; e José Múcio Monteiro, natural de Pernambuco, cujas assessorias não responderam até a publicação deste texto.
Naquele dia do encontro relatado por Vorcaro à namorada, o ministro que estava em Belo Horizonte era Alexandre Silveira, do Ministério de Minas e Energia. Político mineiro, ele votou e acompanhou a vitória do candidato que apoiava, Fuad Noman.
A Folha fez contato com Vorcaro e Duda e questionou o que foi discutido na reunião que aconteceu na noite daquele domingo, 27 de outubro.
Em nota, o MME (Ministério de Minas e Energia) disse que o ministro mantém interlocução com agentes públicos e privados dentro da normalidade institucional, sem favorecimentos. "O ministro Alexandre Silveira rechaça, de forma categórica, quaisquer ilações que associem agendas institucionais ou compromissos pessoais a interesses indevidos."
A defesa de Vorcaro entendeu que não cabe comentar o que qualifica como "conteúdos que decorrem de vazamentos ilegais de material sigiloso". E destacou: "Trata-se, inclusive, de fatos que já são objeto de investigação criminal determinada pelo ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal. Qualquer manifestação sobre informações obtidas dessa forma apenas reforçaria a disseminação de conteúdos cuja divulgação é, em si, objeto de apuração".
Wanderley não retornou até a publicação deste texto. Ele foi procurado por meio de três diferentes números de celular e em uma das empresas da sua família.
CONEXÕES MINEIRAS
Cinco pessoas que acompanham a cena empresarial de Minas Gerais, ouvidas pela reportagem com o compromisso de não terem o nome divulgado, contam que a proximidade entre Silveira e a família Wanderley é conhecida há anos, e que o ministro se aproximou de Vorcaro à medida que o banqueiro ganhou projeção.
Silveira e os Wanderley, inclusive, compartilham jatinhos.
Duda e o ministro voaram juntos em 14 de novembro de 2025, uma sexta-feira. Os registros da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) mostram que ambos embarcaram no terminal em Brasília às 7h rumo a São Paulo, na aeronave prefixo PR-FNE, um Hawker 850XP.
Com os dois, estavam a assessora de Silveira e conselheira fiscal da estatal Nuclep, Hemeline Soares, e o deputado estadual Gil Pereira (PSD-MG), aliado próximo do ministro e presidente da Comissão de Minas e Energia da ALMG.
A aeronave, com capacidade para dez passageiros, pertence a duas empresas: Conasteca Consultoria e Assessoria Técnica e Administrativa e Berg’s Aviation.
A Conasteca tem dois sócios, Athos Silveira, primo do ministro que administra vários de seus negócios, e a empresa Solidez Participações, que é presidida pela estudante de medicina Maria Luiza Silveira, filha do ministro.
A Berg’s Aviation pertence a José Alfredo Berg Filho, que transporta a elite mineira. Berg, como é conhecido, aparece diversas vezes na conversa entre Vorcaro e Martha Graeff porque cuidava dos deslocamentos dela e de seus familiares. A Berg possui cinco aeronaves, e Silveira utilizou o melhor da frota nesta viagem.
Antes de pertencer à Conasteca e à Berg, o avião era dividido por outras pessoas igualmente próximas a Vorcaro e por outros integrantes da família de Duda: Belvitur, de Marcelo Cohen, parceiro de Vorcaro em empreendimentos turísticos, a Eupar, de Octavio Euler, e a Saulo Wanderley, tio de Duda.
Hemeline Soares, a assessora de Silveira, também viajou com outros integrantes dessa família, os primos Saulo Filho e Thiago Wanderley, em 22 de março do ano passado.
NEGÓCIOS CRUZADOS
A família Wanderley é uma das mais importantes na economia de Minas Gerais. Entre os seus empreendimentos mais conhecidos estão as construtoras Cowan e Wanmix –setor em que a família de Silveira também prospera.
Os Wanderley ainda são referência pela influência na política e, frequentemente, doadores em campanhas eleitorais.
Na área de mineração, dois negócios dos Wanderley se conectam diretamente com Vorcaro –o fundo Victoria Falls e a 3D Mineração.
O Master administrou o fundo de 2018 a agosto de 2025, quando ele teve registro cancelado. O Victoria Falls controlava a 5W Participações, dos primos de Duda, e outras empresas da família Wanderley. O fundo também era, até o cancelamento, dono de 93% das ações da mineradora Tamisa.
A mineradora 3D é um empreendimento mais jovem. No mercado, os três Ds remetem aos nomes dos dois sócios, os irmãos Duda e Daniel Wanderley, e a Daniel Vorcaro, que financiou a empresa, mas não é sócio.
A empresa foi criada 46 dias antes de arrematar 116 áreas num leilão da ANM (Agência Nacional de Mineração), em agosto de 2024. Num dos lotes, a 3D alegou, depois de vencer, ter registrado de forma não intencional um zero a mais, o que multiplicou o valor do lance por dez, e pediu a correção, reduzindo o valor.
O pedido foi aceito pela diretoria da agência no fim daquele ano, contrariando parecer da área técnica, mas acatando a orientação do relator do caso, Caio Seabra Filho —um indicado do ministro Silveira. A decisão acabou gerando questionamentos no TCU (Tribunal de Contas da União).
Em nota à reportagem, a defesa disse que Seabra Filho não é investigado nessa questão, que ele reconhece que o melhor era não ter atendido o pleito da 3D e feito um novo leilão da área, mas que um pedido semelhante tinha sido acatado por diretores da agência anteriormente, o que de fato ocorreu.
Meses depois, Seabra Filho apareceu em um escândalo. Em setembro de 2025, ele estava entre os 11 agentes públicos e empresários presos na Operação Rejeito, por suspeita de participar de uma organização criminosa para facilitar extração e venda ilegais de minério de ferro na Serra do Curral —o que sua defesa também nega. "Confiamos que a investigação em curso apenas confirmará a absoluta regularidade da sua conduta", afirmou em nota.
Um dos líderes da organização, segundo a Polícia Federal, seria o empresário e ex-deputado estadual João Alberto Paixão Lages, acusado de atuar como "diretor de relações institucionais" do grupo.
Lages é doador de campanha do ministro Silveira. Em 2022, doou R$ 100 mil para a campanha do então candidato ao Senado. Silveira não foi mencionado no material que embasou a Rejeito, que foi colocada em sigilo no STF, em outubro do ano passado, sob relatoria do ministro Dias Toffoli.
Em nota, o MME disse que, apesar de a doação aparecer na prestação de contas de Silveira no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), como prevê a lei, ela foi feita para o suplente da coligação, Virgílio Guimarães, que possuía conta bancária específica. "Importante ressaltar, ainda, que a doação foi realizada antes de qualquer relação com a pasta de Minas e Energia, uma vez que o ministro era senador da República", afirmou.
Lages, por sua vez, não respondeu aos questionamentos que a Folha fez a seu advogado.
Outra empresa importante nessa teia é a Itaminas. Vorcaro teve 66,66% do negócio, junto com outras famílias mineiras tradicionais, os Gontijos e os Géo.
Em agosto do ano passado, Vorcaro chegou a ser eleito presidente do conselho de administração da Itaminas, mas, em meio à crise do Master, renunciou em outubro e, no mês seguinte, vendeu sua fatia aos sócios remanescentes.
Enquanto Vorcaro controlava o negócio, a Itaminas arrendou minas da Vale em Brumadinho, o que fez o seu faturamento aumentar em mais de 30% de 2024 para 2025. O arrendamento ocorreu em meio a uma campanha do governo federal, encabeçada pelo ministro Silveira, que pressionou a Vale a ceder áreas inativas para empresas menores.
"É irresponsável o que, infelizmente, temos por parte das grandes mineradoras no país", disse Silveira, por exemplo, em março de 2024 durante inauguração de complexo de fertilizantes em Minas Gerais. "É inaceitável que algumas fiquem 50 anos com os direitos minerários sem explorá-los."
Procurado por meio da assessoria do ministério, Silveira não se manifestou sobre a questão.
A Vale disse à reportagem que o modelo de parcerias minerais é consolidado no setor e adotado pela empresa desde 2010. "Todas as empresas parceiras passam por uma rigorosa auditoria de compliance, avaliando requisitos legais, de integridade e segurança", disse em nota.
"As tratativas para arrendamento da mina Jangada tiveram início em 2023, com processo aprovado pelo Cade e homologado pela ANM em 2025, após processo totalmente transparente e regulamentado."
Já a Itaminas, em nota, disse que as negociações pelo arrendamento começaram em 2022, quando Silveira ainda não era ministro. "O crescimento da Itaminas é resultado dos investimentos realizados por seus sócios nos últimos anos, com foco em eficiência operacional e expansão de suas atividades".
Por Alexa Salomão/Pedro Lovisi/Lucas Marchesini/Folhapress
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