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Cinco anos depois de ser preso enquanto trabalhava em uma barbearia, em Salvador, o barbeiro Luan Bruno Barbosa Lopes foi absolvido da acusação de participação em um assalto no bairro do Rio Vermelho. Luan foi preso em setembro de 2021, acusado de integrar um grupo que roubou clientes do restaurante Doce Sal, no Rio Vermelho.

Na época, a Polícia Civil informou que o barbeiro teria confessado participação no crime

. A família, porém, sempre contestou a versão e afirmou que ele foi espancado dentro da delegacia para assumir o assalto. Na nova decisão, a Justiça afirmou que não encontrou provas suficientes para ligar Luan ao roubo.

A sentença destaca que as vítimas não reconheceram o barbeiro como um dos envolvidos e que apenas dois homens foram vistos dentro do restaurante durante a ação. Outro ponto considerado é que o fato dos objetos roubados terem sido encontrados na barbearia onde Luan trabalhava não era suficiente para comprovar participação dele no crime.


Um dos acusados, inclusive, ainda afirmou em depoimento que o barbeiro não sabia da origem dos aparelhos escondidos no local. O próprio Ministério Público da Bahia pediu a absolvição de Luan durante a fase final do processo. Preso no dia 22 de setembro de 2021, o barbeiro passou mais de quatro meses no sistema prisional até conseguir responder ao caso em liberdade.

Em entrevista ao CORREIO após a absolvição, ele descreveu o período na prisão como um dos momentos mais difíceis da vida. “Eu não sei explicar direito. É ruim demais. Só quem passa sabe como é. Parece que o tempo não passa nunca lá dentro. Eu fiquei quase cinco meses preso. Lá dentro a gente não dorme direito, fica numa agonia. Às vezes fica acordado até cinco horas da manhã. Eu tinha medo. Ali o cara sofre mesmo”, contou.

Luan também afirmou que deixou Salvador logo depois de ser solto por conta do trauma causado pela prisão. Segundo ele, a experiência mudou completamente a vida que levava antes do caso. “Quando eu saí, não quis mais ficar em Salvador. Vim logo para o interior porque fiquei traumatizado com tudo o que aconteceu. Também não quis mais trabalhar como barbeiro. Procurei outro trabalho de carteira assinada e segui a vida”, disse.

Justiça após anos

Lucas Cavalcanti, advogado de Luan, afirma que a absolvição de não é apenas uma vitória jurídica. "É o resgate de uma dignidade que foi injustamente vilipendiada. Desde o primeiro dia, sustentamos que estávamos diante de um erro judiciário crasso, fruto de uma investigação apressada que se baseou em presunções, e não em fatos. Luan é um trabalhador, um empreendedor que teve sua vida interrompida por meses de uma prisão preventiva desnecessária e dolorosa", afirma Cavalcanti. 

Ao relembrar o momento da prisão, Luan voltou a afirmar que sofreu agressões físicas e psicológicas para confessar participação no crime. “O policial me bateu muito para eu assinar o papel. Nem deu tempo de ler o que estava escrito. Eu assinei achando que ia sair. Botaram uma sacola na minha cabeça, teve ameaça, martelo, jogaram álcool no meu rosto. Eles só queriam que eu assumisse o crime, mesmo eu dizendo que não tinha feito nada”, declarou.

Cavalcanti explica que a ação da defesa fez com que Ministério Público e polícia reconhecessem que não havia um indício sequer da participação do jovem no crime e que ele foi preso de maneira equivocada. "Esta sentença serve como um alerta sobre os perigos da responsabilidade penal e reafirma que, no Estado Democrático de Direito, a liberdade de um inocente deve ser protegida com o máximo rigor", analisa o advogado. 

O caso chegou a ser investigado pela Corregedoria da Polícia Civil após denúncias feitas pela família de Luan. O pai do barbeiro, Gerson da Silva Lopes, também afirmou na época que sofreu intimidação de um policial ao defender a inocência do filho. Apesar da absolvição de Luan, a Justiça condenou dois dos acusados pelo assalto a sete anos, nove meses e dez dias de prisão. Um quarto denunciado no processo morreu durante o andamento do caso.

Após a decisão, Luan afirmou que a absolvição trouxe a sensação de finalmente recuperar a liberdade. “Parecia que eu continuava preso ainda, como se estivesse devendo alguma coisa para a Justiça. Depois que saiu essa decisão, agora sim parece liberdade. Agora estou de boa. Meu nome ficou limpo. A expectativa era justamente essa: limpar meu nome”, afirmou. 

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