Em meio à repercussão da delação premiada que firmou com o Ministério Público da Bahia (MP-BA), a ex-diretora do Conjunto Penal de Eunápolis repetiu que facilitou a fuga de detentos da unidade prisional após um acordo com o ex-deputado federal Uldurico Júnior (PSDB) e negou que tenha tido um relacionamento amoroso com o traficante Ednaldo Pereira Souza, o Dada.

As declarações de Joneuma Silva Neres foram dadas em entrevista exclusiva à TV Bahia, exibida no BATV desta quinta-feira (30). Ela cumpre prisão domiciliar depois de ter passado mais de um ano detida pelo envolvimento no crime.

As ações de Joneuma, que admitiu ter feito ”vista grossa” para a execução do plano de fuga, permitiu que 16 detentos deixassem o presídio de Eunápolis no dia 12 de dezembro de 2024.

“Como está no processo, a facilitação da fuga se deu por um acordo entre o ex-deputado Uldurico Júnior e Ednaldo. (…) Após uma negociação com alguns valores, foi combinado que seriam R$ 2 milhões para facilitar, fazer uma vista grossa em relação ao planejamento dessa fuga. Foi ele [Uldurico] que negociou, me usou, para poder negociar essa fuga”, frisou.

As ações de Joneuma, que admitiu ter feito “vista grossa” para a execução do plano de fuga, permitiu que 16 detentos deixassem o presídio de Eunápolis no dia 12 de dezembro de 2024.

”Como está no processo, a facilitação da fuga se deu por um acordo entre o ex-deputado Uldurico Júnior e Ednaldo. (…) Após uma negociação com alguns valores, foi combinado que seriam R$ 2 milhões para facilitar, fazer uma vista grossa em relação ao planejamento dessa fuga. Foi ele [Uldurico] que negociou, me usou, para poder negociar essa fuga”, frisou.

A ex-diretora também disse, na delação, que Dada fez um adiantamento de cerca de R$ 200 mil, entregue em caixas de sapato, além de transferências via PIX.

Inicialmente, a investigação do MP-BA apontou que Joneuma teria vivido um relacionamento amoroso com Dada na mesma época em que também se relacionava com Uldurico. A ex-diretora nega o envolvimento com o chefe da facção Primeiro Comando de Eunápolis (PCE).

Na delação, ela disse que Uldurico passou a pressioná-la para ter mais contato com Dada depois que ele perdeu a eleição para a Prefeitura de Teixeira de Freitas e precisava de recursos financeiros.

Em entrevista à TV Bahia, Joneuma argumentou ainda que as notícias sobre esse suposto relacionamento com Dada a prejudicaram muito. “Tanto que até cogitaram que minha filha fosse filha dele, e o que mais me prejudicou foi que o pai da minha filha, Uldurico, nunca se pronunciou que era o pai dela, mesmo sabendo que eu estava grávida desde outubro de 2024”, criticou.

Joneuma deu à luz enquanto estava no presídio e sempre apontou o político como pai da criança. Em nota, a defesa do ex-deputado disse que solicitou judicialmente a realização do exame, que não foi feito até o momento. Atualmente, ele está preso em uma cela comum da Penitenciária Lemos Brito (PLB).

De acordo com ela, os dois se conheceram quando ela atuava como agente penitenciária na Unidade Prisional de Teixeira de Freitas. Foi ele o responsável por sua indicação para comandar a unidade penitenciária de Eunápolis — a primeira mulher a assumir tal posto na Bahia.

Mas a ex-diretora ressalta que o envolvimento amoroso só teve início em fevereiro de 2024, dois meses após a indicação, feita em dezembro de 2023. ”Não foi uma coisa relacionada a outra, não. O relacionamento surgiu depois, não foi uma moeda de troca como muita gente acha”.

Juiz que acompanha o caso anda com colete à prova de balas

 

A TV Bahia também entrevistou o juiz Otaviano Sobrinho, titular da 1ª Vara Criminal de Eunápolis, responsável por afastar toda a diretoria do Conjunto Penal quando a investigação sobre a fuga em massa teve início. Ele segue à frente do caso e passou a se proteger usando um colete à prova de balas dentro do fórum.

”Chegaram informações de que seriam praticadas ações que pudessem, de alguma forma, causar, escandalizar a sociedade, mostrar o poderio frente ao Estado, inclusive com ameaças severas às autoridades constituídas que estariam nesse projeto, entre as quais eu fui incluído”, relatou. Ele, então, recorreu à segurança institucional do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA), com escolta de policiais e o uso do colete.

O foco do plano de fuga era tirar Dada da prisão — Joneuma, inclusive, disse que o esquema previa a saída de apenas dois detentos, e não 16. Ainda assim, um ano e quatro meses depois, apenas três fugitivos foram alcançados. Dois deles morreram em confronto com a polícia e o terceiro foi recapturado.

Os demais seguem longe do radar da polícia. Na última semana, a Polícia Civil do Rio de Janeiro deflagrou uma operação com apoio do MP-BA para capturar Dada, mas sem sucesso.

Embora o monitoramento feito pelo Ministério Público indicasse o paradeiro do traficante, ele conseguiu fugir antes de ser pego pelos policiais. Dada estava escondido na Rocinha, com apoio da facção Comando Vermelho, e tinha alugado uma mansão no Vidigal — comunidade vizinha — para curtir o feriadão de Tiradentes. Na fuga, deixou parentes e amigos para trás.

Entenda como ocorreu a negociação, conforme delação de Joneuma

  • Em 2 de novembro de 2024, Joneuma e Uldurico Júnior estavam em um hotel, em Eunápolis, quando o candidato a vereador Alberto Cley e a esposa dele trouxeram uma pessoa de confiança de Dadá, que saiu do veículo de Cley e entrou no veículo do ex-deputado federal.
  • No veículo, estavam Uldurico Júnior (no volante), Joneuma ao seu lado, e a pessoa de confiança de Dadá no banco traseiro. Essa pessoa ligou do celular dela para Dada e realizou uma chamada em modo viva-voz.
  • Na ocasião, foi firmado o acordo de facilitação da fuga em troca dos R$ 2 milhões.
  • O valor seria pago em espécie no dia 31 de dezembro, na cidade de Porto Seguro, quando um funcionário de Dada levaria o dinheiro para a casa de um primo de Uldurico.
  • No entanto, o ex-deputado federal informou que necessitava com urgência de um adiantamento de R$ 350 mil. Dada teria aceitado adiantar o pagamento de R$ 200 mil antes da data da fuga. As informações são do G1