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| Justiça responsabiliza concessionária de energia por mortes de espécies ameaçadas de extinção na Bahia Crédito: Divulgação |
A
Justiça da Bahia determinou que a Neoenergia Coelba apresente, em até
30 dias, um plano de adequação da rede elétrica na região de Praia do
Forte, em Mata de São João, além de fazer o pagamento mensal de R$
61.529 ao Ministério Público para custear ações emergenciais de
conservação da fauna. Em caso de descumprimento, a empresa estará
sujeita a multa diária de R$10 mil.
A
decisão foi assinada no dia 28 de abril pela juíza Lina Magna Andrade
Sena Santos, da 5ª Vara Cível de Mata de São João, e reconhece um
problema apontado há anos por pesquisadores e moradores da região: a
morte de animais silvestres causada por fios e equipamentos elétricos
sem proteção adequada.
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| Preguiça-de-coleira-do-nordeste (Bradypus torquatus), ‘em perigo de extinção’ usa os fios como passagem entre fragmentos florestais por Divulgação/ Instituto Preguiça-de-Coleira |
Há
denúncias relacionadas a duas espécies ameaçadas de extinção, mas a
decisão da Justiça diz respeito à preguiça-de-coleira-do-nordeste
(Bradypus torquatus), classificada como ‘em perigo de extinção’. Os
animais usam os fios como passagem entre fragmentos florestais isolados
pela expansão urbana e morrem eletrocutados ao entrar em contato com
transformadores desprotegidos.
Um
levantamento do Instituto Preguiça-de-Coleira aponta cerca de 24
preguiças mortas eletrocutadas na região de Praia do Forte nos últimos
três anos, incluindo fêmeas prenhas e lactantes. Dados do Centro de
Triagem de Animais Silvestres reforçam o cenário: em 2023, 12 das 92
ocorrências registradas envolveram animais com histórico de choque
elétrico. Nos dois primeiros meses de 2024, foram cinco casos em 36
atendimentos.
Além
disso, laudos do Laboratório de Patologia Veterinária da Universidade
Federal da Bahia (UFBA) confirmaram a causa das mortes, identificando
queimaduras profundas e necrose de membros compatíveis com descargas
elétricas de média e alta tensão.
Um
dos episódios citados no processo ocorreu em 18 de setembro de 2025,
quando uma fêmea adulta monitorada por microchip e seu filhote, com
menos de um mês de vida, morreram eletrocutados em um transformador que,
segundo a própria concessionária, já possuía dispositivos de proteção
conhecidos como "copinhos protetores".
Ao
mencionar o caso na decisão, a magistrada afastou a tese de que os
episódios seriam eventos fortuitos, destacando que a empresa tinha
conhecimento do risco, adotou medidas consideradas insuficientes e não
conseguiu impedir novas ocorrências.
Área
A
área afetada possui relevância estratégica para a conservação da
espécie. Praia do Forte concentra a maior população conhecida da
linhagem norte da preguiça-de-coleira, com densidade quatro vezes
superior à observada em outras localidades. Os fragmentos florestais de
Camurugipe-Covão, a Refúgio de Vida Silvestre Sapiranga e o Loteamento
Quintas do Castelo formam o maior corredor de Mata Atlântica do norte da
Bahia.
Pesquisadores
do Laboratório de Ecologia Aplicada à Conservação da Universidade
Estadual de Santa Cruz (Uesc) demonstraram, por meio de telemetria por
GPS e drones termais, que a perda de habitat levou os animais a
utilizarem a rede elétrica como rota de deslocamento, tornando os
acidentes previsíveis.
A
ação civil pública foi ajuizada pelo Ministério Público do Estado
(MP-BA) após quase dois anos de investigação. O órgão reuniu laudos de
necropsia, notas técnicas do Inema, pareceres científicos da Uesc e
relatórios do Programa Conecta-Vidas, iniciativa do Instituto
Preguiça-de-Coleira voltada ao monitoramento, resgate e conservação da
espécie.
Segundo
os autos, tentativas de acordo extrajudicial com a concessionária não
tiveram sucesso. Ao conceder a liminar, a juíza aplicou a Teoria do
Risco Integral, segundo a qual, em matéria ambiental, a
responsabilização independe da comprovação de culpa quando o dano é
constatado e há obrigação de preveni-lo.
O
valor mensal de R$61.529, que deve ser pago pela concessioária,
corresponde a 30% do orçamento do Programa Conecta-Vidas e deverá ser
destinado ao Fundo de Defesa dos Direitos Fundamentais do Ministério
Público da Bahia, financiando ações de resgate, monitoramento e
conservação até que a rede elétrica seja adequadamente adaptada.
Além
disso, a Neoenergia Coelba deverá apresentar um plano contendo
mapeamento georreferenciado das áreas críticas, cronograma de
substituição de estruturas desprotegidas e indicadores de eficácia das
medidas propostas. Caso contrário, passará a pagar multa diária de R$10
mil.
Arara-de-Lear
Já
em Euclides da Cunha, no semiárido baiano, há outro caso que tem
alertado especialistas e ambientalistas: a arara-azul-de-lear
(Anodorhynchus leari), também listada como ‘Em Perigo de Extinção’,
enfrenta situação semelhante. Há registros de animais sendo vítimas de
choques em redes elétricas.
De
acordo com a Associação Jardins da Arara de Lear (JAL), houve
crescimento expressivo no número de mortes da espécie. Entre 2008 e
2017, foram registradas apenas quatro ocorrências. A partir de 2018, os
casos passaram a aumentar de forma acelerada: nove mortes em 2018, nove
em 2019, oito em 2020, 15 em 2021, 46 em 2022, 28 em 2023, 20 em 2024,
48 em 2025 e mais nove até maio de 2026.
Ao
todo, 196 araras foram encontradas mortas entre 2008 e maio de 2026.
Desse total, 151 registros — cerca de 77% de todas as mortes já
documentadas — ocorreram apenas entre 2022 e 2026.
O
impacto se torna ainda mais significativo diante do tamanho reduzido da
população da espécie na natureza. Estimativas apontam para
aproximadamente 2,5 mil indivíduos vivendo em liberdade. Assim, as
mortes registradas por causas consideradas evitáveis representam cerca
de 8% de toda a população conhecida da arara-de-lear.
A
distribuição geográfica dos casos também chama atenção. Euclides da
Cunha concentra 140 das 196 ocorrências registradas, o equivalente a
71,43% do total. Entre as principais causas identificadas está a
eletrocussão em redes de distribuição de energia.
A Neoenergia Coelba foi procurada pela reportagem e ainda não se manifestou. O espaço segue aberto.
Fonte: Correio 24 Horas


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